A minha cela

Não cometi crime algum, mas estou preso. Não é que me espante. Já vivi noutras prisões. Hoje, chamam-lhe, eufemisticamente, confinamento. O meu estatuto, semelhante ao de milhares, não é igual ao que tive no meu passado, algures pelos anos 60, desde os 11 aos 18 anos. Nesse tempo, era eu seminarista, saía com os meus companheiros, às quintas e aos domingos. Não eram saídas precárias, não. Eram estatutárias, mas condicionadas pelo clima. Quem mandava era a chuva. Com o sol dávamo-nos bem.  Nos outros dias, podíamos ter visitas, em grupo,  numa sala. Festejávamos o Natal e a Páscoa junta da família e, no verão,  tinha três meses de ar completamente livre. Não era bem livre, porque os vigilantes eram muitos mais: cada habitante da aldeia. Convinha cumprir as regras definidas para esse tempo. Naquela vida de recolhimento, podemos dar-lhe também este nome,  cada um podia despedir-se, se a família o consentisse. Ninguém era obrigado a permanecer no internamento – olha outra palavra -,  mas, tal decisão podia ter consequências desagradáveis no futuro imediato. Por outro lado, podia ser despedido pela «autoridade» que nos «governava», como Deus fez a Adão e Eva. Ou seja: não cumprindo os mandamentos,  era emitida uma ordem de expulsão (palavra ingrata), fosse ela oral, fosse escrita. E a escrita podia não ser escrita. É isso mesmo. Bastava que o papel, a ficha, chame-se-lhe o que quisermos, não registasse a nota de comportamento, ao lado das notas disciplinares. A ausência significava despedimento,  um «adieu», não voltes. Foi o que me aconteceu. Ao fim de sete anos (mas que número simbólico!)  – sete anos  de pastor Jacob servia/Labão, pai de Raquel, serrana bela;/mas não servia ao pai, servia a ela,/e a ela só por prémio pretendia. – vi o quadradinho do comportamento vazio. Fiquei sem saber como seria o dia de amanhã. Dar a volta ao texto, no imediato, foi um quebra cabeças. Vida de seminário não era pêra doce, naqueles anos. Mas, foi esse tempo que me deu um amanhã, quero dizer, parte do que sou hoje.

Estes anos, de uma certa clausura,  deram-me estofo para um outro tempo, mais curto: 27 meses na fronteira do Senegal, numa terriola chamada Pirada. Toparam? E quem é que se pirava dali? Passado o arame farpado… Cautela! Podia haver um coronavírus na ponta de uma bala. É verdade que duas vezes, por semana,  lá ia eu com a minha malta comer um bife com batatas fritas a Nova Lamego (Gabú), com o medo em cada centímetro do corpo, não fosse entrar por ele um objecto estranho que o estragasse sem remédio, ou então, desaparecermos sem darmos por isso, se uma mina… Percebem, não é verdade?  Fora as balas, as minas, os rpg7 – cá está o 7 -, o nosso mercado, o shopping center  só tinha géneros para nos «oferecer», para ao almoço e jantar,  bife de fiambre, salsichas –pilinha de macaco, como lhe chamavam os soldados –  e arroz. Às vezes, de avião chegava peixe, a cheirar a podre, e as batatas tinham, metade, a qualidade do  peixe. Outras vezes, comia-se chispe, acompanhado com chispe.  Vá lá, com mais arroz. Barato era o whisky , a cerveja e a coca-cola que os continentais não provavam.

Maravilha, hem!

Agora, veio este desgraçado, que não se apresenta, filho de morcego ou pangolim ou da «coisa» que o pariu. Num ápice dá ordens, como  se fosse Hitler, Mussolini, Lenine, Brejnev, Ho-Chi-Min, Pinochet, Mao-Tsé-Tung. É isso: Mao-Tsé-Tung. Tung, tung e desata a matar. E nós enrolados no medo. E, para não termos de o enfrentar, ficamos em casa, numa cela.

A minha cela, se querem saber, até nem é má. Tem uma sala jeitosa, adornada de livros, sobretudo, muitos sem grande ordem,  e, por isso, às vezes, conflituam entre si, por causa do espaço. É que alguns estão bem instalados, outros queixam-se de que não têm abrigo condigno, estão em cima uns dos outros. Há aqueles que se queixam de muito trabalhar e há os que pedem para que eu lhes pegue ao colo. Nunca se está contente com a sorte que se tem. Viva a reclamação! Depois, a minha cela dispõe de uma cozinha, com os indispensáveis apetrechos. Na dispensa também há um sururu. É que ao lado dos produtos alimentícios há uns objectos dispensáveis de outros sítios. Logo, nem uns nem outros gostam desta situação. É só protestos.  Nesta minha cela, disponho de um espaço para dormir e casa de banho, ora pois. Graças a Deus. E  bendigo a Divindade porque  houve um tempo em que… Sabem onde quero chegar?  Os mais novos, não. Os da minha idade, os aldeãos, sim. Quando era menino e adolescente  o «serviço», esse que estais a pensar, fazia-se nos «quintais». Não conto mais, que o tema não é aliciante. Voltando aos carris:  na minha cela, até, tenho direito a televisão, telefone,  a ler, a escrever e  a ouvir música.   Para meu consolo, e isto o corona –  a palavra lembra-me os coronéis do nordeste brasileiro,  e também o mais burro dos burros, a bolsa(do)naro – não me tirou, tenho pela frente todo o encanto da vertente do Alvão, agora a verdejar. Daqui, posso saudar e abraçar as freguesias de Mondrões,Vila Marim, Lordelo, Borbela e Adoufe.

Um dia vou abrir a porta da minha cela, para sair e entrar,  sem ter de deixar os sapatos à porta. Eu e vós. Vós e eu.

Ribeiro Aires

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