Mónaco, Macau, Pau, Long Beach, Vila Real…Nomes familiares para quem gosta de automobilismo. São algumas das melhores pistas do mundo, as mais desafiantes, aquelas que os pilotos mais gostam. São circuitos citadinos. São pedaços de asfalto que na maior parte do ano são usados no dia a dia, sem grande interesse por vezes para chegar de A a B. Mas chega uma altura em que começam a transformar-se. Aos poucos, vão ganhando rails de protecção, redes, pinturas novas até que num determinado fim de semana do ano, transformam-se de novo em palco de um dos mais espectaculares desportos do mundo. Durante esse fim de semana, estes palcos voltam a ser reverenciados e aclamados por todo o mundo. Nesses dois ou 3 dias de adrenalina, loucura  e velocidade, deixam de ser apenas nomes de cidades para passarem a ser a expressão de uma paixão que perdura há muitos anos. Os circuitos citadinos são mágicos.

E a magia não se deve só a metamorfose que sofrem para se tornarem na conjugação de curvas míticas que muitos conhecem de cor. A magia vem também dos artistas que lá se mostram ao mundo. Homens e mulheres de um talento único, que fazem da capacidade de andar depressa uma arte que encanta milhões. Homens e mulheres que ignoram o risco e vão para o asfalto lutar contra o tempo. Uma busca incessante pela perfeição que se traduz num número frio, que define uma ordem. Uma luta onde todos querem chegar primeiro, mas nem todos têm a arte para tal. Uma luta que depois se transforma também, e se torna num duelo, onde homens e máquinas medem forças e aí também apenas os melhores  e mais astutos conseguem sair vencedores. É talvez por isso que os citadinos têm uma magia única, pois para vencer lá é preciso ser especial. E como só os melhores poderem saborear o champanhe da vitória,  os fãs olham para os citadinos com um respeito ainda maior.
E tudo isto faz mudar o que rodeia o circuito. A cidade que recebe a prova molda-se para se adequar as exigências, o que nem sempre agrada quem lá vive. Mas a cidade ganha um colorido e uma vida difíceis de qualificar. A festa que se vive nesses dias, a agitação, o clima de euforia dá até à mais pacata das cidades uma aura diferente. Mais luminosa. Um sinal claro que a vida não tem de ser pálida e controlada.

Temos a sorte de viver num dos melhores citadinos do mundo. Perdoem-nos a presunção, mas acreditamos genuinamente que os deuses das corridas olharam para Vila Real com um carinho especial e deram-lhe uma combinação difícil de igualar. O “carrocel” da Maria do Carmo, que vai dar a mítica curva da Cipreste, a porta para a espectacular recta de Mateus, que desce vertiginosamente até a Araucária. É um espectáculo digno de ser visto. A primeira vez que vimos os carros a fazerem a segunda e Mateus e a engrenarem sucessivas reduções é algo que fica para sempre gravado.

E é talvez esse o grande segredo. Quem vê as corridas num citadino sente-as de forma diferente. A sensação de velocidade é maior, o som é mais arrepiante, o ambiente é de maior comunhão. As pessoas vão com mais facilidade ver as corridas num citadino do que numa pista desviada. O nacional de velocidade ganhou e muito com o regresso de Vila Real e ganharia ainda mais se Vila do Conde, por exemplo, também regressasse. A proximidade do espectáculo com as pessoas é o ponto chave que tornam tudo isto muito mais belo. Num autódromo a divisão é muito mais hermética e fria… de um lado os carros, do outro os fãs. Num citadino há uma comunhão e proximidade maior.

Os citadinos são uma dor de cabeça para quem organiza, quem vive na cidade e para quem lá corre. Mas no final todos concordam que são das melhores coisas que se pode ver. Mesmo quem não gosta de corridas fica contagiado, embora não o admita. E quem gosta fica extasiado. E até os citadinos mais recentes como Baku, são capazes de dar corridas loucas em que o resultado é quase sempre inesperado. Os citadinos como Vila Real ou Mónaco, podem não dar o número de ultrapassagens que muitos gostariam, mas são de uma exigência tal que  voltamos a sentir aquela admiração pelos pilotos, que volta após volta vão rasando as protecções. Nos autódromos podemos ter a tentação de pensar “era capaz de fazer igual”. Num circuito citadino não. E são poucas as pistas mais fascinantes e que conseguem criar um apelo tão grande quanto os citadinos.

O mundo precisa de mais circuitos destes. Nós temos a felicidade de percorrer um todos os dias. E talvez por isso esta paixão seja tão grande.

Por: Fábio Mendes

Texto de “Chicane Motores” para o site oficial do CIVR