A Luz de Jesus


Por: J. Ribeiro Aires

– A luz, a luz! –Filipe Luís mexia-se e remexia-se na cama.  A mulher acordou sobressaltada. – A luz – continuava ele. Os últimos tempos não lhe correram de feição. As promessas anunciadas não se cumpriam e já havia  quem lhe quisesse roubar a cadeira em que há anos se sentava.  Vânia percebeu que o marido estava a ter mais um pesadelo. Ligou a luz do candeeiro. Ele continuava agitado e a repetir a mesma palavra. Abanou-o. Ele acordou, olhou para ela, assustado, e repetiu: – Eu vi a luz, mulher, eu vi a luz.

– Viste a Luz, ontem, como vês todos os dias – disfarçou. –  Mas há algum problema na Luz, para teres assim uma tão grande preocupação? Foi outro pesadelo, como aquele de há dois anos?

– Não foi pesadelo. Foi uma visão. 

– Mas há dois anos também tiveste uma visão.

– É a mesma luz, a luz que me aparece, a indicar-me o caminho. Um passo sempre à frente.

Vanda saiu da cama, foi à cozinha e trouxe-lhe um copo de água.

– Bebe, para acalmares.

– Eu não quero água. Eu quero Jesus. Aquela luz  é a de Jesus. Aquela luz leva-me a ele.

– Já foste uma vez Gaspar. Agora queres ser o quê? Baltasar ou Belchior?

– Eu não quero ser nem um nem outro.  Quero chegar a Jesus, só eu e mais ninguém,  mas não me importo que com ele venha  um Baltasar e um Belchior, bons de pernas e de cabeça, isso sim.

– E a burrinha, não? – sorriu  a esposa. 

– Não . Quero que ele traga uma vaquinha e com muito leite. Agora, o que eu preciso é de um avião.  Quero chegar já a Jesus.

– Para quê um avião? Vais raptá-lo?

– Sim.  Não. 

–  Sim ou não?

– Não.

– Então pode vir de barco.

– Não. Quero-o já. Jesus é a minha salvação.

– Salvação? Já o perseguiste, quando foi pregar para o outro lado da  rua. Então, cantaste vitória. Qual Caifás, já o levaste a uma condenação e,  no túmulo colocaste uma laje,  quando estavas na escuridão. Bates agora no peito?

– Já desviei a laje. Ele ressuscitou. 

–  Ou tu é que procuras a ressurreição? 

–  Só Jesus é  a minha esperança.  A esperança é que nos salva.

– A fé, Filipe, a fé. Já dizia Lutero. Mas não basta. Para um bom cristão são precisas as obras. E olha que houve um Filipe de nome como tu que só acreditou quando viu as feridas do Crucificado.

– Mas eu tenho fé. Não preciso que me mostre quem ele é. Eu acredito de olhos fechados, de costas, seja de que modo for.  Os meus “inimigos” já se anunciam. E a cadeira é minha. E com esta «obra» eu consigo afastá-los.

– Não penses mais no assunto, para que não tenhas pesadelo maior. Dorme.

Filipe Luís enrolou-se, novamente, no lençol. Vânia desligou a luz do candeeiro. Virou-se para o lado contrário de Luís, que era para onde ela dormia melhor, e tentou adormecer. Luís parecia ter retomado o sono, assim o indicava um leve ressonar.  Mas, antes que a primeira luz da aurora se anunciasse, já ele se agarrava a ela, sorrindo, desta vez. Filipe Luís sonhava, novamente. Só via águias a voar.  Eram tantas as águias que até ofuscavam a luz do sol. Ora planavam, ora batiam as asas, ora, em voo picado com as suas garras e bicos afiados,  afugentavam falcões e aves de rapina menores. E numa águia gigante, uma avatar, a indicar o caminho, Jesus.  Era este o seu sonho de sempre: reinar  sobre a Europa, sobre o mundo.  Mas,  de repente, desvaneceu-se o sorriso e acordou, sobressaltado, outra vez.

– Que foi? – perguntou Vânia.

– Nada.

– Nada? 

– Apareceu um nevoeiro muito denso…   

– São as tuas dúvidas, querido. Eu percebo-te. Encontrarás Jesus, porque anseias pela tua salvação, por encontrares o teu céu, falta é saber se, apesar de todo esse teu querer, ele caminhará sobre as águas e se  será mesmo capaz de transformar a água em vinho.

 – Transformará, transformará…

– E, se não transformar,  nunca serás um Barrabás no alto do Calvário.

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