A libertação de Lula

Lula da Silva, presidente do Brasil entre 2003 e 2010, entregou-se no passado sábado à Polícia Federal brasileira, para cumprir uma pena de prisão de 12 anos em Curitiba, pelo crime de corrupção. A prisão de Lula, de longe o pré-candidato melhor colocado em todas as sondagens para ser eleito Presidente da República em outubro deste ano, coloca o Brasil perante uma situação política de complicada análise, por diversos motivos.

Primeiro, a questão da culpa. É Lula da Silva um corrupto apanhado nas malhas da lei ou é Lula da Silva um político preso por um sistema judicial politizado? A crença numa Justiça cega é condição de partida para qualquer discussão num Estado de Direito, mas desde a Roma Antiga que sabemos que a Justiça é tão impermeável a obscuros interesses de classe quanto o é a maiorias em fúria exigindo condenações ou libertações, ou seja, nada. A verdade, neste caso particular, talvez ande algures pelo meio. Se é hoje certo que o Partido dos Trabalhadores (PT) não foi imune à corrupção endémica brasileira, nos mandatos em que Lula e Dilma ocuparam o Palácio do Planalto, e se é igualmente certo que dificilmente um Presidente pode ser desconhecedor de todas as operações de corrupção perpetradas em nome do partido do poder, não é menos correto dizer que o processo em que Lula acaba por ser condenado tem todos os contornos de excecionalidade com a marca da perseguição política. Para não ser exaustivo numa discussão que é puramente jurídica, o apartamento pelo qual Lula foi preso está penhorado por dívidas da empresa proprietária, o que em muitos países impediria a sua utilização no processo contra ele. Mais do que isso, a celeridade e atropelo de procedimentos para o prender tem toda a sombra de uma visão política no processo judicial. Acima de tudo, não me parece que Lula deixe a ideia de um homem que enriqueceu à custa de corrupção e que vivesse uma vida de luxo patrocinada por esses crimes.

Segundo, a questão do pragmatismo da política. O que vai fazer o PT agora? E quem vai ganhar as eleições? Em pleno período de pré-campanha, vai ser mais do que nunca vital para o PT ganhar o poder agora. Será que vai tentar fazê-lo com um candidato próprio ou vai apoiar uma outra candidatura da sua área política? Como vai tentar capitalizar a voz que Lula ainda vai ter, nestes tempos em que os assassinatos políticos são apenas figurados e em que um Lula na cadeia vai ter, talvez, maior capacidade de influenciar o voto de milhões? E pode essa estratégia aglutinar o Brasil anti-PT em torno de uma personagem como Bolsonaro, com um discurso a roçar a extrema-direita?

Como se vê, são mais as incógnitas do que as certezas, e já coloquei de lado, à partida, o cenário de Lula ainda tentar ir a votos, pelo menos numa primeira volta, pois parece-me que é uma jogada que desaproveitaria o ponto forte atual, dele e do PT.

O que me leva à terceira observação, a do seu legado. Lula da Silva governou o Brasil levando o país a crescer economicamente até se apresentar como uma potência dentro dos países em desenvolvimento, utilizando esse crescimento para lançar um alargado leque de programas sociais, tendentes a tornar o Brasil num país mais equitativo. Com as suas presidências, o Brasil melhorou em todos os índices relativos a fome, mortalidade infantil, habitação, educação e emprego, tendo batido todos os recordes de popularidade e levando a uma tranquila eleição de Dilma Rousseff para sua sucessora.

É por isso que, mais do que a prisão do Lula-homem, a libertação do Lula-ideia, que ficou como o grande slogan do seu último discurso em liberdade, pode ser o mais importante que permanece, quando passar a espuma dos dias. Se já existia um “lulismo”, a verdade é que ele pode explodir com a sua prisão e transformar-se na força motriz que leve um candidato por si apoiado a ganhar as eleições, com um horizonte de futuro que Lula, manifestamente, já não tinha.

E nesta libertação de Lula pode residir o seu maior triunfo.

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