Por: António Cândido Miguéis

A geringonça continua a (des)governar o país (mal e atabalhoadamente – veja-se o caso dos funcionários públicos que receberam, no pretérito mês de Janeiro, um vencimento menor do que aquele que foi processado em Dezembro do ano transacto…). Ou, veja-se o caso da continuada corrupção a vários níveis , do nepotismo e amoralismo que grassam no país, neste singular regime que é mais partidocrático do que democrático (formalmente poder-se-á afirmar que é democrático, mas, na essência, não deixará de ser partidocrático). Isto para não ter de referir o caos instalado em muitas urgências dos hospitais deste país (a que se junta o angustiante agravamento dos tempos de espera para consultas em diversas especialidades), o encerramento de balcões dos CTT, o contínuo desmantelamento de empresas que continuam a lançar centenas e centenas de pessoas no desemprego ou o aumento dos impostos por via directa, indirecta, a que se acrescenta a introdução subreptícia de taxas, taxinhas e outras formas subtis de esmifrar o contribuinte. Anteriormente, o governo de Passos Coelho, que precedeu o actual governo da geringonça, empreendeu, à época, políticas nefastas e opressivas na governança do país, políticas essas que até ultrapassaram as sugestões da ominosa troika, essa entidade supranacional que exerce o seu injuntivo diktat. Com a geringonça instalada, os portugueses ainda tiveram alguma esperança que as políticas se alterassem, no sentido de se perspectivar um futuro consistente que desse alguma esperança. Verifica-se, depois destes anos volvidos, que, afinal, a deterioração e a degenerescência do regime democrático continua a sua senda e as promessas da geringonça principiam a inflectir desviando-se do propósito inicialmente traçado.

No caso dos (das) docentes, o estatuto social e profissional não pára de degradar-se, desde há uns anos a esta parte, com a promessa cínica a fraudulenta, agora, da parte do governo, do reposicionamento nas carreiras e da recuperação do tempo de serviço congelado. Mas que tipo de reposicionamento? Que recuperação do tempo de serviço congelado? Qual progressão? Aumento insignificante de uns míseros euros , esbatimento salarial na diferença dos escalões e a não recuperação do tempo de serviço congelado – verdadeiro esbulho que prejudicará imenso as professoras e os professores- é o que irá acontecer com o prenúncio de que, efectivamente, os professores (as) irão ficar pior do que estavam em termos profissionais e remuneratórios. Essa é que é a verdade!

Recorde-se que a proletarização da classe docente se acentuou no consulado bisonho e provocador do arremedo de ministra que foi Maria de Lurdes Rodrigues, desunhando-se em humilhar e vilipendiar a classe abnegada dos docentes que, hoje, de forma desencantada e penosa, se arrasta neste ensino caótico onde será mais importante a reles burocracia e a execrável papelada do que a arte de ensinar e transmitir conhecimentos. Arte que não é facilitada pela considerável horda indisciplinada de desordeiros, insolentes, madraços e mal- educados que frequentam as salas de aulas deste país, tornando-as um verdadeiro lugar de batalha, um lugar de tormento, suplício e angústia para os professores (as), particularmente os (as) que se aproximam da idade da reforma e que já há alguns anos deveriam estar reformados. Muitos deles (delas), atingirão a idade de reforma completamente extenuados e quase, simultaneamente, – ou antes – já estarão a esticar o pernil (quantos professores(as) quinquagenários(as) e aqueloutros que já atingiram os 60 e tal anos de idade estarão de baixa neste país? E porque será que estão de baixa?).

À guisa de conclusão:: a geringonça vai continuar a fingir que governa e vai continuar a seduzir os portugueses e, entrementes, Rui Rio vai aguçando os dentes para, na possibilidade de um dia ser governo, fazer igual ou pior. Na generalidade a vida não está melhor – continua, sim, a piorar-, não está fácil e o que interessará, em particular, a esta mixórdia governamental, é- no caso dos professores -, não dignificar a classe. O que lhe interessará é que os actores políticos, os deputados e os “ourodeputados” do Parlamento Europeu estejam bem remunerados, com ajudas de custo, benesses e alvíssaras várias que lhes permitam governar a vidinha. E, de permeio, a geringonça vai continuar a endrominar e aperrear o “zé povo” que também se encontra espalhado, em boas doses, pelo funcionalismo público.