A confusão aí está

A confusão é enorme. A confusão aí está. A política hoje não é de esquerda nem de direita. É apenas um sentimento depressivo que se torna endémico porque é partilhado por muita gente. Não é um fenómeno partidário. É apenas uma doença repartida que se espalhou um pouco por todo o lado.

Por isso, hoje o meu olhar sobre as coisas é mais branco, mais calmo e mais relaxado. A provocação, a existir, está mais do lado de quem lê do que do lado de quem escreve.

Estamos encerrados em bolhas que não comunicam e ninguém está disposto a escutar opiniões diferentes. As pessoas são surdas e mudas em relação ao que se passa fora da sua zona de influência.

Hoje lê-se tudo de forma literal, não se dá espaço à ironia. Não há lugar para a metáfora. A cultura atual não se preocupa com a arte. Ninguém sabe o que há de fazer com ela.

Parece que todos nós nos sentimos vítimas da diversidade, da inclusão e da representação. Generalizou-se a ideia de que é preciso reescrever a História. Tudo isso para suprimir a verdade em nome da representação global, da inclusão e da diversidade. Tudo isso, além de complicado, é enganador. Os progressistas querem, a toda a força, impor a sua agenda.

A grande parte das novas narrativas falsificam tanto as más como as boas ideias.

Criamos um avatar de nós mesmos que nos representa. Temos medo do que realmente somos.

Janet Malcolm, no seu livro “The Journalist and the Murder”, sintetizou tudo isto na perfeição: “A sociedade posiciona-se entre extremos de uma moralidade insuportavelmente severa, por um lado, e, por outro, de uma permissividade perigosamente anárquica, aceitando-se tacitamente que nós podemos quebrar as regras da moralidade mais austera, desde que o façamos de forma silenciosa e discreta. A hipocrisia é o lubrificante que mantém a máquina a funcionar de forma aprazível.”

Fala-se muito em empatia, mas a verdade é que as pessoas cada vez têm mais dificuldade em compreender porque é que sentem aquilo que sentem.

Por isso é que as pessoas apreciam heróis marginais como o Joker, que durante a noite não quer nada, nem sequer dinheiro, pois pretende criar simplesmente o caos. Pensam que a única maneira de consertar o sistema onde vivem é destruindo-o.

Esta é a lógica que levou Trump ao poder. A política passou a ser um sentimento caótico. Hoje as pessoas são apreciadas pelas suas transgressões.

Vivemos no tempo em que líderes como Trump e Bolsonaro têm o desplante de explorar a alarvidade, a estupidez e a ignorância como se fossem conquistas democráticas.

Nós devemos ser honestos com os nossos gostos e também com os nossos desgostos.

No entanto, o historiador Yuval Noah Harari defende que no século XXI a principal ambição humana, para além do controlo da fome, das epidemias e da guerra, será a tentativa de transformar os humanos em deuses. Ou seja, o esforço será na criação da capacidade de manipular e criar vida.

Na sua opinião, o pior cenário é o de a inteligência artificial vir a empurrar centenas de milhões de pessoas para fora do mercado de trabalho, criando assim uma nova “classe inútil”. As pessoas perderão o seu valor económico e, por arrastamento, o seu poder político, enquanto, ao mesmo tempo, a bioengenharia tornará possível a criação de uma pequena elite de super-humanos.

O melhor cenário reside na possibilidade de as novas tecnologias poderem vir a libertar todos os seres humanos do fardo das doenças e do trabalho pesado e permitir que todos explorem e desenvolvam o seu verdadeiro potencial.

Os três desafios existenciais do futuro são de natureza global. O mesmo é dizer que só serão resolvidos através de uma cooperação global.

Uma coisa temos de perceber: por incrível que pareça, não existe contradição entre nacionalismo e globalismo. Já que o nacionalismo democrático não é odiar estrangeiros. Nacionalismo é amar os nossos compatriotas. Por isso é necessário cooperar com os estrangeiros. O mesmo é dizer que os bons nacionalistas devem também ser bons globalistas.

Mas a grande revolução tecnológica prevista para o século XXI é preocupante já que consiste na capacidade de piratear os seres humanos. E piratear seres humanos significa que os pirateadores entendem melhor os seres humanos do que eles se entendem a si próprios.

Mas o que tiver de ser será. Ou não será. Os truísmos aí continuarão a estar para o que der e vier.

Por: João Madureira

Partilhar:

Outros artigos:

Menu