A Cidadania e a Escola

Por: Anabela Quelhas

A Escola actual é um sítio de Ensino e Educação.

            Confesso que entendo que a Educação deve ser um processo desenvolvido em família, desde que as crianças nascem, e que a nobre missão da escola é ensinar. O mundo do conhecimento é inesgotável e de facto poderia ocupar toda a carga lectiva e não chegaria. 

            Poderemos separar Ensino de Educação?

            Os pais depositam os seus filhos na escola e a maioria demite-se da sua função educadora, por falta de tempo, paciência e conhecimento. Em casa é para jantar e dormir, o resto do tempo, as crianças e jovens estão na escola, e esta vê-se obrigada a educar. Atendendo a este enquadramento, considero que talvez seja a área académica mais importante, tendo como objectivo criar uma sociedade melhor, com cidadãos activos, intervenientes, criativos, críticos e com respeito pelo outro, que pode existir como “disciplina” autónoma ou sendo explorada transversalmente por todos os professores.

            Deve-se esclarecer previamente:

            — A Religião Moral é uma disciplina facultativa (vivemos num estado laico).

            — Antes havia uma área disciplinar, Formação Cívica, que passou no tempo do Ministro Crato a ter um programa mais focado e estruturado e denomina-se Educação para a Cidadania e Desenvolvimento, e é obrigatória, já que cidadania é algo que todos devemos desenvolver se queremos viver numa sociedade.

            — Quem determina os programas das disciplinas é o ministério da educação e não os professores.

             O caso dos alunos que reprovaram por não terem frequentado Educação para a Cidadania e Desenvolvimento, trouxe a público esta polémica de se ser “objector de consciência” sobre conteúdos leccionados na Escola e cresce uma onda de indignação incompreensível, que tem um odor retrógrado e mal enquadrado. Nas redes sociais passa também um velho questionário, que supostamente teria sido aplicado numa escola e que nunca se provou ser verdadeiro, para arrebatar indignação das massas.

            “A educação para a cidadania visa contribuir para a formação de pessoas responsáveis, autónomas, solidárias, que conhecem e exercem os seus direitos e deveres em diálogo e no respeito pelos outros, com espírito democrático, pluralista, crítico e criativo, tendo como referência os valores dos direitos humanos.”(Direcção Geral da Educação) 

            Isto choca alguém?

            As suas áreas temáticas são: Dimensão europeia da educação –Educação ambiental – Educação do consumidor –Educação financeira – Educação intercultural – Educação para a segurança e defesa da paz – Educação para o risco –Educação para o desenvolvimento – Educação para o empreendedorismo – Educação para o voluntariado –Educação para os direitos humanos – Educação para os media – Educação rodoviária – Educação para a saúde para a sexualidade – Educação para a igualdade do género.

            Das quinze áreas temáticas que cada escola poderá seleccionar e desenvolver, o que, na verdade, incomoda o tal grupo de cidadãos que fizeram um abaixo-assinado é Educação para a saúde para a sexualidade e Educação para a igualdade do género. São estas duas áreas que estão na base de toda esta polémica, como se fosse possível separar a Escola da Sociedade, como se as crianças fossem assexuadas, como se elas vivessem numa bolha asséptica. Lembro que os tais cidadãos são mais ou menos os mesmos que defendiam a educação sexual nas escolas, no grande debate sobre a interrupção voluntária da gravidez.

            Cada pai gostaria de ter uma escola à medida das suas ambições e se possível interferindo em continuidade segundo as suas conveniências. Isto não é possível, nem saudável, a Escola não pode andar ao sabor das opiniões e preconceitos dos pais:

            — A geografia não poderia ensinar que a terra é redonda;

            — A história não poderia ensinar sobre escravatura, fascismo e o holocausto.

            — A filosofia e as artes, não poderiam abordar o multiculturalismo e observar o Homem Vitruviano. 

            — As ciências não poderiam apresentar Darwin.            Há uns anos, alguém reclamou por uma escola fazer uma exposição sobre o 25 de Abril, onde figuravam duas fotos sobre a guerra colonial. O que, na verdade, incomodava os pais, não eram as fotos de corpos decepados, que os filhos vêm na televisão depois da meia-noite e nos jogos virtuais, o que incomodava era a escola lembrar o 25 de Abril

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