A amofinação de Silvério Silvestre

Ana Brízida andava um pouco amofinada. Há dias que o marido, Silvério Silvestre, andava diferente do costume: azedo, irritadiço, quizilento. Há uma semana, depois de ter torcido o pescoço à Amarela, a galinha mais velha, atirara o Babalu, gato da sua estimação,  pela janela, só porque o bichano insistia em saltar-lhe para o colo, como sempre fizera e ele sempre aceitara.  Ela bem  entendia o que se passava. Conhecia o principal porquê, mas procurava não dar demasiada importância aos pequenos actos de descontrolo do marido, para não  acicatar outras atitudes que não adivinhava. Tudo começou quando o Malaquias fechou o seu pequeno estabelecimento, um cafezito-tasca ou tasca-cafezito,  onde ao fim da tarde era costume juntarem-se os amigos, para uma jogatina de sueca ou à  bisca se não havia parceiros suficientes para aquela. Tudo isto por causa do maldito coronavirús. Malaquias  bem precisava  de ter a casa aberta, mas o melhor era não arriscar. Não viesse por aí a GNR, de passagem  ou por denúncia de mau vizinho… Nos seus 70 anos, viúvo, o seu pequeno comércio era o seu complemento de reforma de velhice e a melhor maneira de se manter de  pé, vivo. Mas que havia de fazer?  Mandava quem podia. Se era para fechar…

– Silvério Silvestre, inda estás im casa,  catano? Tu não oubes?  São 8 da matina, é tempo de levares o gado ao pasto, agora qu´ está verdinho gritou-lhe  Ana Brízida.

– ‘Tá como ontem. E como antes d’onte.

– Hom’essa, home! Mas que se passa contigo? Nestes dias num tens andado muito fino. ‘Stás  doente? Num me digas que tamém ‘tás c’o corona.  Só nos faltaba mais essa.

– Nem c’rona nem doente da mona. Nós não podemos ir à bila e se o bicho não pode bir à serra… Ele num boa.

– O pior é se alguém o trouxe de lá. Ele gosta de andar às cabalitas.

–  Comigo nem o diabo se mete, q’anto mais.  

– Bô diabo já és tu  – riu-se Ana Brízida.

– Por isso é que tu gostas tanto de mim. Só fiquei mais um minutinho na cama e ficaste logo a cacarejar. Como bês, já tou pronto. Ó menos  no monte tenho sossego.

– Bai, bai, qu´é pra ber se arribas. Tens andado munto murcho. Em tudo – acrescentou, em surdina.

– Que disseste?

– Que a erba está berdinha. Vai ser um consolo prós cabritinhos.  Já mataste o bicho? Se num mataste, eu bou-te arranjar aqui uma boa merenda, pró meio da manhê. Melhor do  qu’o costumas lebar. Mas olha, não me fiques, por lá, o dia inteiro.

– Ficas com soidades, é?

Os  montados  de Lamas de Olo sempre foram propícios à criação de gado ovino, caprino e vacum, uma riqueza para os seus habitantes. Silvério Silvestre desceu à loja, abriu a porta e logo uma vintena de cabras e cabritos saltaram para a rua, em direcção aos montes de Dornelas, alheios aos problemas do confinamento humano.

Ana Brízida e Silvério Silvestre, ambos  já perto dos  70 anos,  nunca correram mundo. Lamas de Olo sempre foi o seu paraíso e o campo e o gado a sua fortuna. Viviam felizes à boa maneira aldeã: entediam-se e desentendiam-se como todos os casais. Nos últimos tempos, Ti Brízida, como era chamada, sentia o marido um tanto cismático, às vezes desorientado, um tanto esquecido, desleixado e birrento. Andava como o tempo.

Após o marido sair, ficou a falar consigo e com os galináceos a quem foi deitar duas mãos cheias de milho e uma bacia de couve  que acabara de segar: “ homem danado. Só faz o que quer. Não há quem lhe ponha juízo nos cornos, Deus me perdoe, que sabe que num é berdade que tenha crescenças dessas. Às bezes parece um burro teimoso.

Uma semana depois, na primeira semana de Maio, abertas as fronteiras que impunham o «fique em casa»  aos velhos, Ti Brízida lembrou ao marido que era preciso ir  à «bila»  fazer compras e trazer os remédios pró coração, para  a tensão, para o colesterol. Lembrou-lhe que tinha de levar a máscara feita pela prima Genoveva, o frasco do álcool. Silvério Silvestre deixou passar dois dias. Ti Brizida deu-lhe a lista: massa, macarrão, açúcar, azeite, peixe, etc. Escolheu o pior dia, o de mercado, uma sexta-feira. Fez à estrada, pelo lusco-fusco. A descer todos os santos ajudavam.

O Mercado Municipal estava uma bichice. Com máscara? Não fosse a polícia…. Ele já adivinhava. Por isso precatou-se e agiu segundo as circunstâncias, originando discussões, protestos, más palavras, desaforos. Cumprida a encomenda, alugou um táxi, porque não erra burro de carga e a subir nenhum santo lhe carregaria as compras.

– Atão Silbério Silbestre…

– Não te preocupes, mulher. Trouxe tudo o que pediste.

– Lebaste a máscra?  Não me digas que…Como foi?

–  Sim, sim …

–  Lebaste o cajado?

Ele riu-se, riu-se.

– Carai,  com estes dois metros não havia   ninguém à frente, nem atrás nem derredor. Ai quem se aproximasse! O bírus ia pró catano.

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