O jornalista e ensaísta italiano, naturalizado americano, Federico Rampini veio a Portugal fazer uma análise ampla das tendências políticas e económicas dos últimos 25 anos, partindo do princípio de que vivemos na era do caos, pois a globalização fez falhar muitas das promessas, aumentou as desigualdades, fazendo com que a resposta à incerteza passe pelo populismo e o nacionalismo. Mas, em certos setores, parece que o tal ambiente caótico é visto como o terreno ideal para a criatividade.

Foi disso que Rampini veio falar: das ameaças e das oportunidades da era do caos.

A nível geopolítico o caos sobrevém das guerras, das guerras civis e da emigração em massa provocada pela instabilidade daí resultante. O segundo caos é a nível económico, com o crescimento incontrolado das desigualdades, sobretudo nas gerações mais jovens. De facto, o futuro parece pouco animador, pois, muito provavelmente, os nossos filhos serão mais pobres do que nós, o que é um fenómeno novo.

A maioria de nós já não acredita que com a educação é possível alcançar um melhor nível de vida.

Existe ainda o caos ambiental e o caos tecnológico.

Em Silicon Valley, as pessoas acreditam que o “caos” é uma palavra maravilhosa. Os que lá vivem e trabalham acham que é fantástico viver num mundo caótico porque é aí que as oportunidades florescem.

O caos geopolítico está a ser criado pelo facto de o Ocidente estar a perder a hegemonia, entrando num declínio irreversível. O centro do mundo está a deslocar-se para a Ásia. Isto quer dizer que estamos a entrar num período em que temos o declínio de um império, mas ainda não temos um novo império.

Vivemos num mundo que é menos desigual entre nações mas que é mais desigual no seu interior.

As desigualdades são tanto ao nível dos rendimentos como das oportunidades. Quando se olha para o sistema educativo vê-se de que maneira a desigualdade de rendimentos, de riqueza, se traduz numa desigualdade de oportunidades.

E o sonho europeu também se vai desfazendo à medida que o tempo passa e os problemas não se resolvem. A larga maioria dos países europeus já deixou de acreditar na Europa porque os seus líderes impuseram as famigeradas políticas de austeridade, sobretudo pela pressão da Alemanha. Agora é a sua legitimidade que está em causa. As gerações mais jovens perderam 10 anos das suas vidas sem terem arranjado um emprego a sério.

Triunfou a visão mercantilista. Na perspetiva de Federico Rampini, a Alemanha construiu a sua economia de modo a garantir um excedente permanente com os outros países, pois esse país necessita que os outros sejam mais fracos e menos bem geridos, sejam menos competitivos, de modo a que ela própria os absorva. Esta, lembra Rampini, é a regra básica do funcionamento do modelo alemão. Por isso nunca se esforçaram para exercerem uma hegemonia benéfica para o resto da Europa.

A crise financeira desencadeou uma nova perspetiva sobre o nosso sistema económico, pois afinal ele não é só ineficiente e instável, como também é profundamente injusto.

Todos nós vimos os Governos socorrerem os bancos, mas serem relutantes em estender o subsídio de desemprego aos que, sem culpa nenhuma, não conseguiram arranjar emprego depois de meses e meses de procura.

O problema é que o sistema não funciona, pois nem os governos nem o sistema judicial consideraram culpados os promotores da desgraça. Foram os bancos que provocaram a crise e foram os banqueiros aqueles que se safaram.

De facto, se ninguém é responsável, se nenhum indivíduo pode ser culpado pelo que aconteceu, isso significa que o problema reside no sistema político-económico.

Na sua opinião os políticos traíram-nos, os banqueiros roubaram-nos e, de uma maneira geral, as elites fizeram falsas promessas que não cumpriram, sobretudo em relação à globalização.

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