Viagem à aldeia de memórias mortas

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Rio de Onor é bem o exemplo daquilo que se passa com a maioria das aldeias de Portugal e nomeadamente as situadas no seu interior.

Foi embarcando numa agradável viagem organizada pelo Grémio Literário de Vila-Realense, pela mão de Elísio Neves, que finalmente me decidi a visitar esta aldeia, sem dúvida das mais faladas de Portugal.

Contudo, o que me foi dado ouvir e ver é desolador.

Dentro de poucos anos de Rio de Onor restará o caravelho e o seu segredo, a vara da justiça e umas quantas casas abandonadas, apesar das muitas centenas de milhares de euros, que ali foram gastos, no futuro diremos de forma inútil.

Estamos perante o crime maior que os nossos políticos e todos nós cometemos em Portugal nos últimos quarenta anos. Esquecemos o interior, investiu-se no litoral, não se olhou, com olhos de ver, para a dramática baixa da natalidade. O resultado está à vista. Tirando meia dúzia de aldeias com vida e que sempre se manterão, ainda que com alguns problemas, este interior ficará deserto.

Com a morte anunciada das aldeias, morrerão as tradições e costumes, os aspectos mais vincados da sua cultura e vida, e os elementos mais importantes da nossa identidade como povo e como nação. Rio de Onor não vai conseguir fugir à regra, que é a destruição de um mundo condenado a desaparecer, o mundo rural como os mais velhos ainda o conheceram.

No domingo passado, dia 16 de Julho, já foi difícil encontrar quem soubesse falar do caravelho e da vara da justiça. Falar em rionorês, um dialecto local, mais difícil ainda, senão mesmo impossível. Ninguém o falou.

Os campos, cuja data para dar início ao granjeio era antigamente decidida em Conselho – e aí entrava a vara da justiça para aplicar as multas aos vizinhos faltosos, pagas em vinho, na sua maior parte – já estão abandonados. De uma vezeira de mais de 400 cabeças de gado caprino e ovino, que constituía um ex-libris para turista ver, observando a distribuição do gado pelas casas e lojas da aldeia, muitas vezes esperando que o dono viesse correr o caravelho do segredo, que apenas  é usado por aqui e na ilha do Corvo, no dizer da guia Anabela do Turismo de Bragança, lhe abrisse a porta, hoje resta um pequeno rebanho de uma dúzia de ovelhas ou canhonhas, como aqui se denominam as ovelhas velhas, de um teimoso que ainda resiste. O resto desapareceu todo.

Algumas casas estão recuperadas. Mas são mais aquelas que se preparam para ficar em ruinas e caírem, paredes desfeitas em pedaços, pois pequenas são também as pedras de xisto de que são feitas.

Durante as horas que ali passámos vi talvez meia dúzia de idosos e um homem de meia idade com um balde e a sachola ao ombro, provavelmente em direcção a uma qualquer poça da qual tira a água para a rega dos seus feijões de onde sairão as casulas que hão-de acompanhar o butelo e a entremeada de porco bísaro que por aqui se cria e que lhe servirão de alimento no longo inverno transmontano.

O resto, meus senhores, é paisagem e assim ficará para sempre. Na memória ficarão os muitos programas de televisão que sobre Rio de Onor se fizeram e ainda se hão-de fazer. E um dia alguém há-de contar que algures no Parque de Montesinho, perdida num meio de um vale, em cima da fronteira com Espanha e a caminho de Puebla de Sanábria existiu, em tempos idos, uma aldeia que morreu. Mas lá, em Rio de Onor, provavelmente, não haverá quem possa contar, muito menos pôr em prática algum costume ou tradição dos seus antepassados.

Mas talvez em Gimonde um qualquer Abel ou D. Roberto ainda continue a servir os secretos de porco bísaro ou a saborosa posta mirandesa. E à mesa, pode ser que alguém leia ou recorde o que leu em algum livro sobre as tradições e costumes de uma antiga aldeia chamada Rio de Onor, há muito desabitada, ou mesmo desaparecida e desafie os seus convivas para meterem pés a caminho e irem tentar descobrir a sua exacta localização.

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