Uma sociedade para todas as idades

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Temos em acção na nossa sociedade um debate acalorado sobre a eutanásia apresentada como uma forma de ajudar a morrer com dignidade aqueles que por doença ou intenso sofrimento não encontram uma razão para viver.

É paradoxal que numa sociedade educada nos “Direitos do Homem”, onde a consciência da dignidade da vida humana parece ser um dado adquirido se discuta a possibilidade de – legalmente – tirar a vida a um ser humano.

A lei sobre a eutanásia, a existir, seria para todos, não se destinaria a nenhuma idade em particular, mas a problemática do sofrimento do fim da vida leva-nos, inevitavelmente, a pensar nos mais idosos. É particularmente significativo que justamente para estes no ano de 1998, em 1 de Outubro, foi proclamado um Ano internacional do Idoso – que desde então se comemora todos os anos – com o tema “uma sociedade para todas as idades”.E uma sociedade de todas as gerações tem de assumir como dever de todos dar a todos – também aos mais frágeis e doentes – o lugar que lhes pertence na comunidade.

Valorizar a vida humana em todas as etapas da sua existência é uma questão de coerência e de justiça. Considerava-se então, tal como hoje, que o maior flagelo do nosso tempo é a marginalização dos que são considerados não produtivos.

Já anteriormente se tinham definido os Princípios das Nações Unidas para os Idosos que de certo modo ampliam os “Direitos do Homem” nos quais, ainda que não se explicite concretamente os cuidados devidos ao fim da vida, sobressaem como “direitos” o acesso a cuidados de saúde que os ajudem a manter ou a readquirir um nível óptimo de bem-estar físico, mental e emocional, a possibilidade de viver com dignidade e segurança. Estes princípios são perfeitamente actuais e não se restringem à problemática do Idoso, são extensivos a todos os doentes sem excluir os que se encontram em fase terminal.

A sociedade de hoje está cada vez mais atenta e capacitada, poderemos mesmo dizer mais especializada, para compreender e precaver o sofrimento humano. Muito é necessário, ainda, fazer mas é inegável que já muito se faz neste domínio.Pensamos nas instituições organizadas que agregam voluntários e profissionais; pensamos naqueles que prestam cuidados, tanto quanto possível eficazes, no exercício das respectivas profissões e na linha da frente encontram-se, inevitavelmente, os médicos e enfermeiras; pensamos, sobretudo, nos profissionais dos cuidados paliativos sempre presentes para compreender, aliviar a dor, dar serenidade aos doentes e à família, enfim, para junto aos doentes em fase terminal ajudar a viver os últimos dias com o possível conforto e verdadeira dignidade. E pensamos nas famílias que sabem que o sofrimento é vencido pelo amor.

E cabe aqui interrogarmo-nos sobre a verdadeira razão da exigência pertinaz de uma lei que permita a eutanásia. Sejamos francos: só uma sociedade que não se empenha em dar lugar aos mais frágeis, que não quer ou não sabe ajudar a viver pode admitir a ideia de ajudar a morrer. Não podemos agora retroceder – sobrepondo mil e uma razões onde se misturam questões ideológicas, financeiras, emocionais e outras – e esquecer o inviolável respeito pela vida próprio da cultura moral da nossa civilização.

*Professora

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