Uma limonada, por favor…

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Não há nada como a realidade para nos fazer rir até às lágrimas.

Quando a República Islâmica do Irão começou a censurar as dobragens dos filmes e das séries apareceram então os grandes momentos do cinema americano em terras de Alá.

A meio de um filme de cobóis, um indivíduo todo ajaezado de americano do bom velho oeste, entrava no saloon, com os coldres ajustados na anca e dizia ao barman: “Quero uma limonada!” Então a barman, com a mão ligeiramente a tremer, servia-lhe um copinho de um líquido que o cobói emborcava de um trago, momentos antes de repetir: “Serve-me outra limonada!”

Os espetadores de televisão riam-se até lhes doer o estômago. Mas em casa, o mais longe possível dos guardas da revolução.

Longe também vão os tempos dos grandes romances que uniam ocidente e oriente. Dom Quixote, segundo os peritos, é o primeiro romance árabe. O primeiro romance árabe e europeu. Não é por acaso que Cervantes o atribui a Sayyd Ibn al-Ayyil, que ele grafa como Cide Hamete Benengeli. O primeiro grande louco da literatura universal dá-se a conhecer ao mundo através da pena de um historiador mourisco da Mancha.

Segundo uma das personagens principais do livro Bússola, de Mathias Enard, “dever-se-ia recuperar a Torre dos Loucos para nela criar um museu da loucura que começaria com os santos orientais loucos de Cristo, os Dom Quixotes, e incluiria não poucos orientalistas. Um museu da mistura e da bastardia.”

Loucos existem espalhados um pouco por todo o mundo. No Brasil existe, pelo menos, um que dá pelo nome de Marcelo Mirisola, que escreve, segundo Vitor Rosa, de “forma louca, libertária e ácida”.

O seu livro, O azul do filho morto, “possui a estranha alegria – ou a felicidade clandestina – daqueles que preveem a derrota de antemão”.

O seu alter-ego leva uma “vida de tatu filhadaputa”. Recusaram-lhe o seu primeiro original, intitulado Um pouco de Mozart e genitálias, fazendo-me recordar o já saudoso amigo e pintor Rui Rodrigues, artista dado também a esses temas. “Azar de quem recusou”.

Para ele, os editores, fora um seu que lhe paga umas cascas de alho por ele escrever o que escreve, são, além de outras coisas que deixo bem quietinhas nas páginas do romance, “analfabetos, cegos por opção, degenerados, mercenários e débeis mentais. Vale a mesma coisa pros jurados de concursos literários e pros poetas em geral”. Ele odeia poetas.

Pior do que poeta só “livro psicografado”, que lhe lembra um tal Emanuel, que é o espírito de um porco, “apenas não é mais covarde, tarado e mau-caráter do que escritor de livro infantil”, incluindo aí os escritores de manuais de autoajuda e livros policiais, pois “enredo é coisa de criança”.

Admite que foi batizado na Igreja do Calvário, entre exus e orixás, que sendo aquilo que são, mesmo assim são mais honestos porque admitem deliberadamente serem analfabetos, não escrevendo livros bem intencionados. “Sincretismo dá nisso.”

Admite que sempre disse que ser feliz é fácil. Quer ver é alguém “ser infeliz e abrir mão dos malditos orgasmos e do chocolate importado. Aí é que é preciso ter talento, bom humor negro e pessimismo… e não gozar jamais”.

Por mais que se esforce, e nisso eu junto-me a ele, não consegue perceber por que razão a “famigerada classe média desaprendeu de sofrer por causa da Tevê a cabo. E a tecnologia, no final das contas, acabou servindo pra caipira desalmado apertar botãozinho e escolher a pior programação”.

Também eu, como ele, acreditava nas canções de Simon & Garfunkel, e na sua pretensa “afinidade”. Mas foi tudo ilusão. Foi tudo do tamanho de um chiclete que depois de mastigado, sem tino nem destino, se deita fora.

Não entendam este escrito como um apelo à leitura do livro, pois a obra destina-se apenas a reservoir dogs. Até porque “se existe verdade é por descuido”.

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