Sargentos Belisário, Pelotas e Gomes de Carvalho

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Acabado de chegar a La Couture – 6 de Abril – o R.I.13 recebeu a boa nova que ia ser rendido dias 9 e 10 pelos ingleses. Uf! Não era sem tempo uns dias de descanso depois de ter andado de seca para meca durante quase um ano. E naquele final de dia 8 de Abril foi tempo de relaxamento para quem recebeu a mensagem, que não chegou a todas as companhias. Mas nesta guerra não havia sono inteiro. O relógio alemão não se compadecia com o tempo do CEP. Há muitos dias que preparavam uma ofensiva, um pesadelo do qual muitos não sairiam vivos. E o pesadelo maior começou, para o exército português às 4,15 horas da madrugada de dia 9, quando o monstro germânico libertou a sua fúria férrea incessante, destruidora e assassina. Inicialmente pensou-se que aquele «vómito» era mais um raid e nesta convicção se manteve o comando do 13 até cerca das 9,30 horas, quando já os alemães avançavam em toda a extensão e havia soldados a escapulir-se das primeiras linhas. Acordado do sonho da rendição, o comando do 13 reagiu, distribuindo pelotões para as várias trincheiras à sua frente, abandonando Ferme Senechal para se refugiar, junto dos ingleses, no Reduto da Igreja, junto ao Block-house, edifício fortificado.

Pelas 11 horas, ainda o nevoeiro não se tinha dissipado. Duas patrulhas da 2ª companhia foram destacadas da linha Penin Mariage Switch para St. Vaast, mais próximo da frente. Depressa entraram em contacto com o inimigo. Uma das patrulhas era comandada pelo sargento Belisário Augusto que foi despedaçado por uma granada logo à saída. Outra patrulha era comandada pelo sargento Américo Pelotas que, de repente, foi surpreendido por uma patrulha boche. Num instante vê os seus quatro praças caírem mortos por uma rajada de metralhadora. Ficou só. Os alemães convidaram-no à rendição. Mas enfrentando-os, negou-se terminantemente. Preferia morrer a render-se. Não respondeu à intimação. Reagiu. “Cresce e cai a fundo sobre os inimigos, matando três, um após outro. Quando corria vitorioso sobre o quarto, já em fuga, uma bala de shrapnell o abate pelas costas”, escreveu David Magno, capitão da 3ª companhia.

Cerca das 15 horas os alemães cercavam já La Couture pelos flancos e pela rectaguarda. As metralhadoras não tinham descanso nas mãos do alferes José Francisco Sevivas e do Sargento Gomes de Carvalho, municiadas pelo alferes sinaleiro do 13, Francisco Pinto Veigas. Mas aquele, o Sevivas, de repente, sem qualquer explicação, segundo David Magno, saiu da sua localização, “mete-se por uma trincheira de comunicações e perde-se na volta”, “pondo-se a salvo do cerco, voltando apenas, a reencontrar-se desarmado e ofegante… na base do C.E.P.” Ei-lo, pois, descansadinho, bem longe do perigo, dizemos nós. Naquele flanco, ao centro, no Reduto da Igreja, ficou só o 2º sargento Gomes de Carvalho. Ou seja “enquanto todos se escapam e botam em direitura ao referido block-house, para junto dos ingleses, – escreveu o capitão Magno – o sargento Gomes de Carvalho, verdadeiro paladino do Reduto do 13, num assomo de virilidade e coragem, fica a guardar os passos dos que se encontravam a seu lado, continuando a despejar o tambor sobre o inimigo”… Mas faltavam-lhe também munições. Requeria mais. Clamava por elas. E enquanto as tinha, a sua lewis vomitava fogo e exalava fumo e provocava a morte na raça alemã. Durante duas horas protegeu a retirada até ao Block-House. “… só depois, quando todos têm passado, é que ele vem também”.

Belisário Augusto foi condecorado com Cruz de Guerra de 3ª Classe, Américo Pelotas recebeu a Medalha da Cruz de Guerra de 1ª classe por feitos de guerra. O sargento Gomes de Carvalho, nascido em Lordelo, foi condecorado com o grau de Cavaleiro da Ordem de Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. Mas o R.I. 13 não se lembra dele. Não o tem no rol dos grandes feitos. Desconhecimento? E então os relatórios de Gustavo Pissarra e Bento Roma, 1º e 2º comandante do R.I. 13? E então as anotações do capitão Mota e Costa, na monografia do R.I. 13 (O nosso sargento é um leão, por toda a parte faz prodígios com a sua metralhadora.”)? Pela nossa parte já publicámos estes factos em A República no Distrito de Vila Real. Há um ano voltámos a insistir em edição do Notícias de Vila Real. Prometemos regressar, daqui a um ano, em livro sobre este e outros assuntos relativamente à Primeira Guerra Mundial.

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Joaquim Ribeiro Aires é actualmente sub-director do jornal "Notícias de Vila Real". É responsável pela rubrica semanal "Na crista da onda".