Pérolas e Diamantes: O drama e o humor

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Hoje, porque estou de mau humor, vou aproveitá-lo para vos contar duas histórias que li em dois livros de teor bem dramático, onde se relata o sofrimento e a coragem numa escrita pungente e desarmante, despida de salamaleques e jogos florais: Vozes de Chernobyl – História de um desastre nuclear, de Svetlana Alexievich e O Pavilhão dos Cancerosos, de Alexandre Soljenitsin.

No livro de Svetlana, Arkadi Fílin, um liquidador intimado a ser voluntário à força para ir limpar as terras contaminadas de Chernobyl, relata um conto de Leoníd Andréiev, onde um habitante de Jerusalém, cuja casa ficava no caminho pelo qual Jesus Cristo foi levado e, por isso, ouviu e viu tudo o que lhe aconteceu. Mas naquele dia doía-lhe muito um dente.

Mesmo assim viu Jesus cair sob o peso da cruz que carregava, viu-o levantar-se, andar e cair de novo, ouviu-o gemer e andar de joelhos. Observou aquilo tudo, mas o dente continuava a doer-lhe. Nesse dia não correu pela rua fora atrás do Nazareno.

Três dias depois, quando já lhe tinha passado a dor de dentes, contaram-lhe sobre a ressurreição de Cristo. Nesse momento pensou: “Pois, eu até podia ter sido uma testemunha desse facto, mas doía-me o dente”.

Não sei bem qual a razão, mas talvez porque a razão tem por vezes coisas que nem a própria razão compreende, esta pequena estória lembrou-me a estapafúrdica frase do inenarrável economista, católico ferrenho e fundamentalista, João César das Neves, com que aspira virar o feitiço contra o próprio feiticeiro, afirmando que “os revolucionários pretendem usar o Papa como arma de arremesso…”

Estamos em crer que nem o mesmíssimo Diabo, se é que existe, e a existir talvez tenha encarnado momentaneamente neste reacionário inconsequente, era capaz de tal dislate alucinatório.

JCN é, muito provavelmente, descendente espiritual do tal senhor que, por causa da dor de dentes, não teve a honra e o privilégio de assistir à ressurreição de Jesus Cristo.

A estória de Soljenitsin é de origem muçulmana, mas é boa na mesma, por muito que isso possa custar ao JCN. Possui mesmo um ligeiro travo amargurado de humor.

Alá, na sua infinita sabedoria, deu a todos os animais cinquenta anos de vida, pois considerava que era tempo suficiente. Mas o homem, talvez um dos primogénitos do tal senhor que era atacado por dor de dentes no momento dos milagres, chegou atrasado e foi o último da fila a receber a benesse. Alá apenas possuía um bilhete com 25 anos.

“Apenas 25 anos”, lamentou-se o homem. “Exatamente”, respondeu-lhe Alá. O homem começou a lamuriar-se como se lhe doessem os dentes todos: “Mas não chega, é pouco tempo de vida”. “Chega”, insistiu Alá na sua imensa sabedoria. “Não, não chega”, insistiu o homem. Então Alá aconselhou-o: “Vai perguntar por aí, pois talvez alguns dos outros animais tenham tempo de sobra e te cedam algum.”

O homem, como bom banqueiro ou avisado economista, assim fez. Encontrou um burro e disse-lhe: “Escuta, a minha vida é muito curta, peço-te, por isso, que me dês alguns anos da tua.” E o burro assim fez, deu-lhe metade dos anos da sua vida. Burro uma vez, burro para sempre.

Um pouco mais à frente encontrou um cão e repetiu-lhe o pedido. O cão, porque já pensava vir a ser o melhor amigo do homem, respondeu-lhe que sim senhor e o presenteava com 25 anos da sua vida.

Já vinha de volta ter com Alá para lhe relatar o sucedido quando se deparou com um macaco. “Para macaco, macaco e meio”, pensou e pediu-lhe também mais 25 anos. O macaco, como não era avarento e gostava de repartir as dádivas de Deus, respondeu-lhe: “Está bem, fica lá com 25 anitos. E seja tudo pela graça de Alá que é grande e misericordioso.”

Entusiasmado, chegou junto do Criador e deu-lhe conta do sucedido. Então Alá respondeu-lhe: “Já que assim o quiseste, viverás os primeiros 25 anos como um homem, trabalharás os segundos 25 como um burro, ganirás os terceiros 25 anos como um cão e nos últimos 25 farás rir as pessoas como um macaco.”

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