Pérolas e diamantes: o défice humano

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Já tudo nos cansa, tudo nos farta, tudo nos incomoda. Vivemos num permanente estado de espetáculo. Rejeitamos o ruído, as conversas. Vivemos numa sociedade paradoxal. Apesar de ser a sociedade da comunicação, não conseguimos criar intimidade, não comunicamos com verdade. As nossas relações são apenas simulacros. Risos e sorrisos sem nada dentro.

As palavras fogem-nos da boca sem destino e sem sentido.

Tomou conta de nós uma indefinida melancolia, um tédio persistente, um cansaço existencial.

Vivemos numa sociedade de espetáculo, onde o consumo é a atividade definidora da nossa suposta contemporaneidade. Consumimos mais umas calças ou uns sapatos esquecendo-nos dos que ainda estão lá em casa por estrear.

Vivemos uma existência nivelada pela vulgaridade. Tudo foi transformado em fait-divers: a violência doméstica, o abandono dos idosos, o roubo dos políticos e dos banqueiros. Perdemos a noção dos valores. O entretenimento é a nova ideologia, sobretudo a cultura audiovisual.

Por vezes, quando um qualquer ministro, ou ex-ministro ou putativo próximo ministro, aparece a proferir mais uma das suas epístolas aos néscios, brincamos a apontar o comando ao ecrã da televisão com um sorriso maroto e a mesma satisfação que tínhamos em garotos quando apontávamos a pistola de brincar ao nosso colega de brincadeira e acertávamos no alvo.

Somos danados para a reinação.

Impôs-se a ideia de que as pessoas não conseguem estar sequer um momento sem se divertir. Produziu-se uma nova realidade. Anos desta ideologia resultou na eleição de um comentador político para presidente da República.

Há uma quantidade infinita de informação e parece que não existe nenhuma.

Triunfaram os que com um mínimo de esforço conseguiram o máximo proveito. O dinheiro continua a ser a principal mola impulsionadora da nossa sociedade.

As rotundas, as amplas praças de pedra e as fontes luminosas são o principal contributo autárquico para o embelezamento das cidades do país.

No Interior proliferam os montes, os vales, as rochas e os arvoredos. Sente-se o abandono, a pavorosa serenidade do abandono. O desleixo. A decrepitude.

Habituaram-nos à democracia. Conversamos e fazemos um pouquinho de teatro. Barafustamos, pomo-nos a fazer de atores. E até opinamos contra isto e contra aquilo.

Mas na vida a sério misturamos algum óleo vegetal ao azeite ou deitamos um pouco de água no vinho ou, quando as coisas aquecem, botamos sempre uma pouco de água na fervura.

Dizem-nos que o querer não basta. São necessários, também, outros atributos.

Somos sempre assim, mas também assado.

O país está mal, é mais do que evidente, mas basta escutar alguns dos nossos mais distintos deputados para logo a dúvida se instalar dentro de nós.

A realidade atraiçoa-nos.

Os bancos e os banqueiros trapaceiros continuam a ditar as leis económicas e financeiras, a corromperem e a deixarem-se corromper.

 

Foi a gente que contribuiu mais para a crise que agora nos diz que a puta da crise é culpa dos outros, culpa nossa, culpa do Estado, culpa da conjuntura internacional e culpa do tempo.

 

Depois fazem cimeiras e dizem que vão resolver os problemas. Os problemas do mundo, os problemas da Europa. E os nossos problemas.

 

E nós, aflitos, acreditamos em tudo.

 

Entretanto os juros continuam a subir, os ratings a descer, os bancos a falir, o desemprego a aumentar.

 

Andamos nisto há uma eternidade.

 

Uma coisa tenho como certa: o nosso verdadeiro défice não é financeiro. É, sobretudo, humano.

 

 

 

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