Pérolas e diamantes: o cordel democrático 

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A vida humana, já mo dizia minha avó, é o maior esbanjamento económico da natureza. Quando estamos preparados para começar a tirar rendimento da nossa experiência humana, morremos. E os que nos sucedem vão ter de começar do zero.

Afinal o que é a alma humana em pleno século XXI? Afinal onde param as fadas da modernização e do bem-estar?

As ideias deixaram de ser um bálsamo para passarem a ser um castigo.

Vivemos num tempo sem deuses e com homens (e mulheres, porque não dizê-lo por mais que isso custe aos cultores do politicamente correto) desinteressantes, dirigido por carreiristas e indivíduos corruptos, onde o capitalismo financeiro, com a cumplicidade ativa dos conservadores e neoliberais, agora fingidos de sociais-democratas, se empenham vorazmente no desmantelamento do Estado Social.

A narrativa e o argumentário perseguem-nos e moldam-nos o pensamento. É o medo vertido em expressões inconclusivas: descontrolo da dívida pública, quebra da poupança, crédito mal parado, necessidade imperiosa de reduzir despesas sociais e a urgente reforma das leis laborais. É o velho conto do vigário. A crise. A puta da crise.

A mando desses senhores convertemos as leiras em baldios e os pomares em eucaliptais. Atualmente os muros delimitam apenas espaços vazios e estéreis.

Mas temos de reconhecer que algo mudou: deixaram de nos tratar como escravos e passaram a tratar-nos como criados.

E nós, bem adestrados, passámos a utilizar o mecanismo psicológico das crianças que se imaginam invisíveis ao tapar os olhos com as mãos. Se não me vês, eu também não te vejo.

Tal como os nossos corpos, também as ilusões morrem e fedem depois de mortas. Independentemente dos perfumes com que as borrifemos.

Continua a ser bonito guardá-las. Chegámos mesmo a pensar defendê-las firmemente até ao fim. Mas até o bom vinho vai azedando dentro do pipo.

Agora, à semelhança dos bancos, a Comunidade Europeia, passou a intervencionar os Estados.

Mandam-nos a casa os homens vestidos de preto. Os cangalheiros financeiros passeando na brisa do Tejo com as suas pastas carregadas de discos externos.

Há quem sorria com as penhoras. Nada do que nos possa importar os afeta. Serve-lhes até de diversão.

As elites endinheiradas acreditam na liberdade individual. Sobretudo na deles. Creem na vontade e no esforço. São os vencedores que gastam o que ainda lhes resta de energia nos spa, nos court de ténis ou ainda nos luxuosos ginásios privativos, onde encontram outros vencedores como eles, que os ajudam a enriquecer graças a uma teia de influências que denominam de sinergias.

Foram ambiciosos, depois fantasiosos. Atualmente entretêm-se em ser mitómanos sociais.

Eles falam de transações de propriedades, trespasses, quintas que escrituram em nome de ex-mulheres, amigos, sobrinhos, cunhados, sogros, mães ou pais, alguns deles com alzheimer, ou outra espécie de senilidade, e falsificam até as assinaturas, tornando-os proprietários de apartamentos, lojas comerciais, sociedades de importação e exportação, pomares e até negócios escuros.

Alguns deles, muito poucos, vão parar à cadeia. Outros saem de lá como heróis. Mas a grande maioria safa-se sempre. Para que a planta cresça é necessário fertilizá-la com adubo ou estrume.

Nós somos como pássaros vivos com uma das patas presas por um cordel a quem dizem: Vá lá, voa, para que raio queres as asas?

Que rica democracia a nossa!

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