Pérolas e diamantes: o abandono

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Há coisas que continuamos a sentir mesmo depois delas desaparecerem. Por vezes adormeço a fantasiar com as velhas ruas da cidade e com os rostos jovens dos meus antigos colegas de liceu.

O romantismo da infância persegue-nos a todos. Nós brigávamos arremessando paus e pedras uns contra os outros. Saímos quase todos meio abrutalhados. Outro galo cantaria se tivéssemos sido criados, por exemplo, numa fábrica de violinos. As nossas guerras teriam sido muito mais educativas e interessantes, batendo uns nos outros com as rabecas.

Talvez as palavras de Tolstoi ganhassem outro sentido: “Fingir diante de si próprio é pior do que fingir diante dos outros.”

Ao jantar, as nossas mães até comiam bem. Comiam como crianças. Comiam como nós. No entanto, pareciam sempre ausentes. Sofriam por nós. Muitas das vezes nos sítios onde as não podíamos ver.

Engoliam a comida ao mesmo tempo que engoliam a dor.

O barulho das brincadeiras das crianças continua a irritar os mais velhos. E o silêncio dos velhos causa mal-estar nos mais novos. Há coisas que não mudam.

Por vezes esquecemo-nos da ideia de moderação que nos ensinaram. Refletimos muito. Mas a inteligência parece que já não nos serve para grande coisa, ao contrário do que acontecia antes.

Continuamos a gostar apenas do peixe que nos servem no restaurante ou aquele que tenha sido cozinhado de maneira a deixar de parecer peixe.

Atraem-nos os diligentes de aspeto limpo e asseado, ainda que ligeiramente descompostos. São sedutores, com o seu sotaque lisboeta e fluentes em inglês, língua que articulam de forma muito agradável. Quando começam a falar, parece que vão dizer qualquer coisa de muito interessante. Mas a verdade é que nunca chegam a ser verdadeiramente originais.

Por vezes sei que tenho razão, mas, em muitas ocasiões, parece errado dizer que se tem razão.

Acertar e afirmá-lo, pode ser, em certos casos, um erro.

Insistir na razão, por vezes, é contrariar a razão do outro.

Muitas vezes dizer a alguém que aquilo que diz é certo, pode ser um erro.

Muitas vezes, fazer coisas certas é errado.

Por isso é que diversas vezes acertamos quando erramos e outras erramos quando acertamos.

Dizem-nos que somos todos muito especiais, só que nunca nos explicam em quê.

Há cada vez mais pessoas que se rendem àquilo que lhes dizem que é a realidade. Não possuem nenhuma capacidade de iniciativa face ao que se passa à sua volta. Vivem prisioneiros dos acontecimentos. Uma atitude de conformismo vai tomando conta de nós.

Vivemos numa época de abandono.

Tonino Guerra, o argumentista de Amarcord, de Fellini, no seu Livro das Igrejas Abandonadas, escreveu esta pequenina história: “Eu abandono Roma, os camponeses abandonam a terra, as andorinhas abandonam a minha aldeia, os fiéis abandonam as igrejas, os moleiros abandonam os moinhos, os montanheses abandonam os montes, a graça de Deus abandona os homens, alguém abandona tudo.”

 

 

 

 

 

 

 

 

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