Pérolas e diamantes: identidade nacional

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Claro que cada ser humano é aquilo que é mais as circunstâncias que o rodeiam. Claro que há por aí toda a espécie de homens políticos. A erva ruim também cresce ao deus dará. O problema é que muito poucos, ou nenhuns, dos nossos políticos atuais, se conseguem colocar ao nível de homens e mulheres de Estado.

Nós não possuímos estadistas, temos bonecreiros. Alguns deles são especialistas na arte da fuga ou na da caça aos passarinhos. Por isso é que somos uma espécie de Estado falhado, sem elites inteligentes, sem empresários robustos, sem classe média estável, sem trabalhadores qualificados. E sem cultura.

Depois de Abril, a nossa classe política dirigente, curiosa, voluntariosa e com a boca cheia de palavras como igualdade, fraternidade e liberdade, começou a olhar para a Europa e para o mundo desenvolvido e, vendo os seus mentores andarem no trapézio com uma rede por baixo, começou a utilizar o trapézio, mas sem rede.

A situação começou a ficar preocupante. E quando as coisas ficaram mesmo feias, chamaram o FMI e outras instituições financeiras internacionais para nos prestarem ajuda. Claro que elas, generosas como são, deram-nos um presunto em troca de um reco. Começou então a nossa fina-flor política a praticar ginástica ainda com trapézio, mas definitivamente sem rede.

Atualmente, e bons alunos como somos, sobretudo na matemática, como o atestam diversos estudos nacionais e internacionais, todos nós, políticos, classe média, operários e restante pessoal, lançámo-nos a praticar ginástica sem sequer utilizar o trapézio. E muito menos a rede.

É lógico que estamos todos um pouco inquietos. Ao mínimo deslize, estatelamo-nos no chão, sem apelo nem agravo. É a lei da vida… perdão, do mercado. Mas quem não quer ser lobo não lhe deve vestir a pele. Já que os cordeiros estão definitivamente esfolados.

Vamos ter que acordar desse sonho obsessivo de ressuscitar tanto como Lázaro e mais do que Jesus Cristo. Pois voltar a nascer já não somos capazes, nem sequer virtualmente. A nossa forma de vida vai ter de passar a ser a realidade.

Quanto mais fantasiamos mais perdemos a noção de realidade. O nosso problema é que sonhamos sempre com a realidade dos outros. A nossa versão ficcional tem sempre a elegância doméstica da pobreza honesta.

A nossa honestidade é isso mesmo: a pelintrice domesticada. Nós não almejamos voar como os pássaros. Contentamo-nos em vê-los voar. Apenas acordamos quando no sonho os jacarés voadores devoram devagarinho as aves que se concentram na árdua tarefa de cumprir com o compromisso e o costume.

Mas já nem a tradição é o que era. Quando regressamos à realidade, já a vida despejou dentro do contentor do lixo a incredulidade e a deceção.

Os guardiões da cidade já não sabem para quem trabalham. E os seus descendentes são como o Barão Trepador de Italo Calvino que se revoltou contra a autoridade do pai resolvendo passar a viver no topo das árvores.

Nós por cá ensinamos os nossos jovens a estudar para não fazerem exames. Isso só lá mais para a frente, quando a seleção natural tiver imposto as suas leis.

De facto, segundo uma reportagem do Expresso, os médicos portugueses estão de novo a tratar as depressões e os doentes bipolares com eletrochoques, provocando convulsões que permitem uma espécie de reset cerebral.

Os psiquiatras afirmam que estes velhos métodos são eficazes e seguros. Apesar do sucesso, e da adesão ao tratamento, segundo noticia o semanário (tamanho XXL), a realidade parece estar escondida dentro dos hospitais.

Neste país de Abril, de Maio, e também de Novembro, a quem é que a verdade interessa?

E então lá vamos nós atras da procissão onde homens ocos transportam santos de pau carunchoso em cima dos ombros.

PS – Passados que são cinco meses após as eleições, Passos Coelho continua amuado por não ter conseguido formar governo. A “geringonça” esquerdista continua a “geringar” e a “caranguejola” direitista continua a rezingar. O PSD votou contra tudo. A intriga orçamental triunfou. Finalmente temos um orçamento amigo dos cães e dos gatos. Abril chegou por fim aos animais. A Direita, nas palavras de Carlos César, “ficou às portas da democracia” e a Esquerda, na minha modesta opinião, atravessou o Rubicão do ridículo. É tempo de rejubilar. Então rejubilemos.

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