Pérolas e diamantes: felizes aqueles que…

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Parece que estamos sempre a escolher entre votar num mentiroso ou num inconsciente.
Creio que não existem opções razoavelmente válidas para nos governarem. É a tal história de estarmos constantemente a partir do zero e a voltar, como nos jogos, sempre à casa da partida. Então e o futuro? Qual futuro? O futuro pode ser tão cortante como uma lâmina.

A luta de classes transformou-se em fumo, diluiu-se nesta insolvente democracia que tem funcionado à custa de suplementos vitamínicos, aspirinas e penicilina.
Vivemos com um pé em casa e outro no hipermercado, indo por vezes aos cafés ou aos bares e também aos concertos pagos pela autarquia e realizados na praça central.
Todos falamos ao mesmo tempo com a intenção de sermos ouvidos. As nossas vozes misturam-se como nos comícios ou nos jogos de futebol.
Houve tempos em que tínhamos dificuldade em distinguir quem estava em cima e os que permaneciam em baixo. Nos tempos do Cine-Teatro era fácil. Havia os que iam ver os filmes para a tribuna e os que os viam da plateia.
Até os bares dividiam as pessoas: chá e bolinhos para uns e vinho e sandes para os restantes.
Agora está tudo enredado, confuso, dissolvente. No entanto, reina uma certa ordem social, que tem muito de misterioso.
Nestes últimos anos surgiu uma nova ordem que se tornou bem visível, com os níveis superiores e inferiores bem definidos.
Alguns transportam satisfeitos os sacos normalizados repletos de compras e cumprimentam-se sorridentes e saciados às portas dos centros comerciais. Outros contam os tostões para comprar o pão, o leite e o arroz. E há ainda outros que mexem e remexem nos contentores onde os empregados das grandes superfícies depositam as embalagens fora de prazo, as frutas e os legumes com aspeto pisado e os pastéis e croquetes industriais caducados.
Há também aqueles patuscos que dizem que na província é que se vive bem. São os que moram nas grandes urbes e nos visitam, nostálgicos, nos períodos do Natal, da Páscoa e na Feira dos Santos. Vêm até cá, manjam as rabanadas, o folar e o fumeirinho e rumam outra vez para onde construíram o ninho.
Também há os que, como eu, caíram na esparrela de acreditarem no que lhes diziam os iluminados. E por isso aqui ficaram, agarrados à província, às memórias e às fragas. O enganador John Huston, que por isso fazia filmes, dizia: “Felizes aqueles que só tiveram uma aldeia, um deus e uma casa”.
Por esse mundo fora reina a guerra, uma guerra de todos contra todos e de tudo contra tudo. Muita coisa se mudou à base da bala e da bomba. O pior é que no fim de tanta mudança, as coisas continuam mais ou menos iguais.
Afinal os fins não justificam os meios. Bem vistas as coisas, nem valem a pena.
Afinal todas as grandes cidades são iguais. O mau cheiro de tudo aquilo que apodrece é idêntico. A publicidade é a mesma, as cadeias de distribuição são as mesmas e as grandes superfícies estão decoradas da mesma maneira. Parece que, apesar de nos deslocarmos de um lado para o outro, não saímos do lugar.
Ainda me lembro, ainda todos nos lembramos, do cheiro a erva molhada, a hortelã, a salsa e do sorriso limpo das pessoas e de se ter tempo para o convívio, a amizade e a solidariedade. Ainda me lembro, ainda todos nos lembramos, da necessidade de estarmos com amigos.
Hoje, os amigos são mais raros do que o lince da Malcata. Atualmente conhecemo-nos todos uns aos outros, mas não somos amigos uns dos outros.
Lá diz o poeta, cantamos sempre o que perdemos.

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