Pérolas e Diamantes: Esquerda, direita, em frente marche (I)

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Na nota introdutória do seu livro Da Direita à Esquerda, António Araújo coloca a seguinte questão: “Além de estúpido, caçar Pokémons é de esquerda ou de direita?” Provavelmente a pergunta não tem resposta, pois a maior parte das coisas que fazemos na vida não se conseguem enquadrar dentro desta dicotomia.

A obra defende que “as práticas, os hábitos e os consumos socioculturais da esquerda e da direita se encontram cada vez mais próximos, obedecendo a uma lógica de espetáculo que tudo absorve e corrompe”.

A seu ver, a grande clivagem que persiste encontra-se naquilo que divide elites e não elites, pois a maioria das polémicas que subsistem na esfera pública situam-se, “hoje como ontem, num âmbito elitista, urbano e sofisticado. O povo mantém-se sensatamente afastado dessas quezílias”.

Do que conseguiu apurar, a grande diferença continua a persistir, à esquerda, no seu apego a uma noção de conflito, ao passo que a direita prefere uma abordagem mais consensual e de compromisso com a realidade. No entanto, observa-se que, atualmente, esse padrão está em vias de mudança, “sendo ainda cedo para avançar prognósticos, sobretudo num tempo tão incerto e volátil”.

Em Portugal, depois do 25 de Abril, existiram alguns traços distintivos que não me foram estranhos e que rememorei durante a leitura do livro.

Em 1986, Diogo Freitas do Amaral, trouxe para a ribalta alguns traços distintivos do seu (da direita, claro está, pois o homem já virou à esquerda há alguns anos) cariz classista. Na sua campanha presidencial popularizou a moda dos sobretudos verdes de loden, de inspiração austríaca e protagonizou uma batalha eleitoral à americana, de grande espetacularidade, que incluiu até chapéus de palhinha… feitos de plástico.

Nos tempos de Cavaco Silva, a direita começou a exibir os seus Rolls-Royce pelas avenidas de Lisboa, a divertir-se no Bananas e a recuperar os solares e as casas de família, graças aos fundos europeus vocacionados para o denominado turismo rural, o agroturismo e o turismo de habitação.

Apareceu então o arquiteto Tomás Taveira, impondo a sua visão pós-moderna, muito peculiar, reinventando a tradição, ao reunir vários arquétipos ancestrais da portugalidade: a guitarra portuguesa no edifício-sede do Banco Nacional Ultramarino (1989) e as famigeradas Torres das Amoreiras (1985), que pretendiam evocar os elmos de guerreiros medievais, relembrando castelos de reis e princesas.

Nos anos 80 surgiram na cena musical os Heróis do Mar, numa onda de revivalismo que, mais tarde, havia de desembocar no projeto Madredeus, ou nos Sétima Legião, onde pontuavam nomes como Rui Pregal da Cunha, Pedro Ayres Magalhães, Carlos Maria Trindade e Rodrigo Leão.

O autor das letras das canções dos Madredeus era Francisco Ribeiro Menezes, que integrava as vozes do coro. Mais tarde enveredou pela carreira diplomática, chegando a exercer funções como chefe de gabinete do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho.

As voltas que o mundo dá.

À esquerda, aparece Rui Veloso e Carlos Tê com o álbum Ar de Rock, rompendo, talvez sem querer, por completo, com a tradição baladeira e de cantautores dos anos 60 e do imediato pós-25 de Abril.

À direita, emerge o Miguel Esteves Cardoso, o famoso MEC, exibindo ao mundo português adereços rétro: o simbólico papillon no colarinho da camisa, óculos redondos, uma língua irrequieta sempre pronta a lamber os beiços secos e um Volkswagen carocha preto. Afirmava-se na altura monárquico e estudioso, para não dizer fã, da Saudade, do Sebastianismo e do Integralismo Lusitano.

O

u seja, a década de 80 foi marcada por uma espécie de neorromantismo muito pop, ou um neoconservadorismo muito kitsh, que, sendo diferentes na génese, convergiam na redescoberta e na hipervalorização do mundo rural de classe, com os seus solares e casas de família, e na arquitetura com materiais naturais.

Mais tarde, o revivalismo conservador foi apanhado por uma ideia histriónica de recuperação de gosto duvidoso, denominado entre nós como português suave, baseado em condomínios privados apelidados de villas (mas com dois ll, para evitar confusões com a pequena burguesia de província), e atividades como o hipismo, a caça, as touradas e o turismo de habitação.

Passados 10 anos, dois após a fundação d’O Independente aparece a revista Kapa.

Tenho de reconhecer que foram os grandes responsáveis pelo meu desvio de direita.

Eu pecador me confesso.

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