Pérolas e diamantes: epístola aos néscios ou o princípio da pena

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Dá pena observar os templos e as praças religiosas transformados em armazéns de venda de fancaria e pechisbeque. Tudo isso supostamente abençoado por Deus. Está visto que os vendilhões do templo nunca o abandonaram. Limitaram-se a esconder-se por detrás de algum altar.

 

Na Bíblia diz-se que os fariseus afirmavam existir um grande perigo em substituir um Deus no coração pelo coração de Deus. Os vendilhões invocam agora o Espírito Santo para apregoarem a sua mercadoria. Uns pensam que basta trazer ao peito um santinho para ganharem o céu. Outros consideram que o alcançam confessando-se, para depois irem tomar a hóstia com os olhos fechados e o coração momentaneamente apertadinho. Mas nada nesses atos tem algo a ver com o amor. É apenas rotina. Pensam salvar-se pela rotina.

 

Não vejo no olhar dos fariseus a doçura dos santinhos que marcavam as páginas do meu catecismo.

 

Os fariseus aparecem agora como os salvadores do mundo, mas são gente perigosa porque se especializaram em abstrações.

 

Estamos a embrutecer, meu Deus, estamos a embrutecer sem nos darmos conta. A impaciência cresce dentro de nós. Os amigos esfumam-se ou disfarçam-se. Por isso é que cada um de nós necessita de um inimigo em quem confiar.

 

A voz dos fariseus redime-os. Possuem uma voz funda e conveniente, regulada, uma voz treinada para mentir com elegância e convicção, exercitada para conquistar os adversários pela ilusória limpidez dos propósitos.

 

Os militantes da política cada vez se parecem mais com os religiosos sem Deus. Andam sempre a escolher o caminho às apalpadelas, sem revelar vontade própria, sem um princípio orientador. Sem um desígnio nobre.

 

Estão sempre a falar das razões pelas quais o seu partido tem razão antes mesmo de nos apercebermos de que a não tem.

 

Há demasiadas imagens deles a circular por aí, mas que funcionam ao contrário, em vez de os fortalecer, enfraquece-os. Pensam que melhoram como pessoas se se deixarem assessorar.

 

Sorrio. Só nos resta sorrir. Um bom sorriso é a melhor arma em qualquer lugar.

 

Depois olhamos para o que se passa no mundo e pensamos como é revoltante a atitude da maioria das pessoas que vivem na Europa e dizem sentir-se frustradas por não desfrutarem ainda do último modelo de telemóvel, por não vestirem a roupa de marca que está na moda ou de o seu carro não estar tão artilhado como o do vizinho.

 

Por mais que me esforce não consigo distinguir entre a violência “legítima” praticada pelos denominados governos legais e a violência “ilegítima” exercida pelos grupos insurretos. Todas as bombas mutilam e matam da mesma maneira. Não acredito na violência como argumento, nem na paz imposta pelas armas.

 

Não creio na razão da força. Acredito na força da razão.

 

Só após dedicar longas horas à leitura de textos das três religiões monoteístas é que me dei conta que possuem muitas coisas em comum. Apesar disso, judeus, muçulmanos e cristãos andam há mais de quinze séculos a matarem-se uns aos outros. Mesmo o Alcorão, que muitos apelidam de violento, afirma-se um livro da revelação que começou com Abraão e integra nos textos fragmentos, personagens e episódios da Bíblia e do Talmude.

 

Num dos seus contos iniciáticos, o Mullah Nasruddin narra que um dia apareceu no mercado um homem generoso que – vendo-o ridicularizado por, de cada vez que alguém lhe oferecia uma esmola, mostrando-lhe sempre duas moedas, uma dez vezes mais valiosa do que a outra, e pedindo-lhe que escolhesse a que preferia, Nasruddin escolhia invariavelmente a de menor valor –, lhe disse: “De cada vez que te ofereçam duas moedas, escolhe a de maior valor. Assim terás mais dinheiro e os outros não te vão considerar idiota.” Então o sábio Mullah respondeu: “O senhor parece ter razão. Mas se eu escolho a moeda maior, as pessoas vão deixar de me dar dinheiro para provarem que sou mais idiota do que eles. Não imagina a quantidade de dinheiro que já ganhei usando este truque. Não há mal em fazer-se passar por tonto se na realidade se está a ser inteligente.”

 

Um antigo provérbio árabe diz: “Tenta alcançar a Lua com uma pedra… Nunca conseguirás, mas acabarás por manejar a funda melhor do que ninguém.”

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