Pérolas e Diamantes: Entre o status quo e a ira de Deus

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A politóloga argentina Pia Mancini defende que uma das causas da apatia das pessoas em relação à política está ligada ao sistema, pois hoje em dia a democracia representativa preocupa-se exclusivamente com as relações dentro da corporação. Deixou de se centrar na educação dos cidadãos sobre a participação, o debate e a tomada de decisões. Qualquer projeto de lei é inacessível para quem não for advogado, “outra elite que luta para manter o status quo”.

Estamos tentados a pensar que quem manda verdadeiramente em Portugal, mais até do que as direções partidárias, são os lóbis constituídos e arregimentados pelos grandes escritórios de advogados sediados em Lisboa e que devem despachar o serviço em franca camaradagem com os principais ministérios.

Por isso é que triunfa o politicamente correto. José Rentes de Carvalho acha que se abateu A Ira de Deus sobre a Europa.

Numa entrevista à revista Sábado, refere que “não há espaço para todos na Europa”.

Na sua perspetiva, o politicamente correto vai ser a desgraça das sociedades ocidentais “porque é a negação de uma realidade e do espírito crítico, a busca de harmonias impossíveis, a exigência de nos pôr a todos a olhar para o mesmo lado, a marchar com o mesmo passo, a aceitar a mesma dieta sob pena de desagradarmos ao grupo”.

JRC não entra no caminho fácil da banalização do medo ao bárbaro ou do complexo de culpa do branco. Ele acha que o perigo está “nesta identificação ingénua com «os pobrezinhos», os infelizes, os deixados por conta no que já se pode chamar de Terceiro Mundo, por ser agora ofensivo”.

Parece que os bárbaros não demonstram lá “muito interesse pelo carinho que lhes querem dispensar, preferindo tomar nas mãos o próprio destino, segundo a sua religião e tradições, dispensando as modas de conduta vigentes em São Francisco, Berlim ou Amsterdão”.

Ou seja, os atentados na Europa estão a acabar com o politicamente correto. O Brexit e a ascensão dos partidos xenófobos e racistas são disso o sinal máximo. As pessoas estão cada dia mais intolerantes, quer seja em nome de Alá ou de Deus.

E é possível que a sacudidela que se aproxima não venha do lado da política, mas sim da economia. “A dura realidade da precisão de três refeições ao dia, o abrigo de um teto e roupa para vestir, não se condói com os sentimentos fictícios do Facebook.”

Não lhe parece que as populações estejam agora mais intolerantes. “Já o eram, mas dá ideia de que aos poucos irão deixando a apatia, descobrindo que de facto podem ter voto na matéria”.

O escritor português, radicado na Holanda, diz que observa sinais de que os muçulmanos e as multidões da África, que deixaram de ser pacíficas, definiram como objetivo colocar um ponto final na velha ordem ocidental. Por isso, “a Europa vai continuar a ser presa fácil do islão”.

De facto, aos muçulmanos sobra-lhes o que aos europeus falta: “Fé, orgulho no seu ideal, um sonho a realizar. A Europa aparenta ocupar-se mais com a superficialidade do dia a dia, as férias, o rock, o hedonismo, o que é de pouca valia como propósito na vida”.

Perguntaram-lhe se tem medo. Ele, lá do alto dos seus 86 anos respondeu que medo não tem, tem apenas tristeza, “porque num mundo em que parecem imensas as possibilidades de melhoria para todos, gastamos a vida e o tempo em inimizades, conflitos bárbaros, entretemo-nos com criancices”, fazendo passar a ilusão de que atualmente as pessoas não “envelhecem a caminho de alguma sabedoria”, evidenciando a tendência de retrocederem para o infantilismo.

Questionaram-no sobre a possibilidade de uma guerra de civilizações na Europa. Respondeu que se lho tivessem perguntado antes da guerra dos Balcãs (1991-2001), a sua resposta seria não. Hoje não arrisca previsões.

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