Pérolas e Diamantes: Entre o iPod e o iPhone

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Também eu sou um homem de bairro. Cresci num e nele muito aprendi.

Sinto agora que os bairros estão doentes. Por vezes são autênticos guetos.

O bairro remetia-nos para a cidade. A cidade remetia-nos para o país. Portugal remetia-nos para a Europa. E a Europa remetia-nos para o mundo.

Mas a moléstia que alastra nos bairros mais não é do que a doença que se instalou no mundo inteiro. O processo inverteu-se. É o que dá viver na aldeia global.

Habilidosamente, muitos dos protagonista da epidemia escondem a realidade. Nós, por outro lado, evitamos ver o mundo que nos rodeia, evitamos identificar o verdadeiro estado das coisas. Pode até ser humano, mas é lamentável.

Os donos de isto tudo conservam a propensão para os números, para as estatísticas, para a abstração. Alguns sentam-se no parlamento, outros preferem os conselhos de administração, ou dedicam-se ao exercício das consultadorias bem remuneradas ou ao exercício privado da sua profissão de administradores da causa pública. A promiscuidade é por demais evidente.

Falam que é necessário tutelar a Autoridade em toda a sua expressão. Defendendo, os mais corajosos, uma suspensão temporária da democracia. Na intimidade confessam que lhes corre nas veias sangue frio, mas que o seu coração continua a ser um carvão em brasa.

Alguns afirmam que a sua consciência os obriga a calar. Mas todos nós sabemos onde está a sua consciência, bem guardadinha no bolso, como a de quase todos nós, pobres pecadores que somos. Depois despejamos um pai-nosso e uma ave-maria e tudo volta ao normal.

O sucesso na vida corresponde atualmente a uma cabeça cheia de números e um coração vazio de sentimentos. Os homens e as mulheres que triunfam assimilaram que para serem um quadro superior com o sucesso de 90% não podem pensar profundamente nas mais pequenas coisas. Daí a Filosofia ter sido varrida das nossas instituições escolares.

O cérebro dos nossos líderes é constituído por uma máquina de calcular e por um dicionário Oxford.

As teorias económicas dominantes, a do mercado livre e mesmo a marxista, dão como garantido que o crescimento económico é sempre uma coisa positiva.

Mas basta pensar um pouco para concluirmos que esse exercício é pura e simplesmente inconcebível. Basta fazer as contas.

Uma taxa de crescimento do PIB de um ou dois por cento é atualmente considerada modesta. Uma taxa de crescimento demográfico de um por cento é a considerada desejável. No entanto, se multiplicarmos esses valores durante cem anos, o resultado obtido é terrível. Levar-nos-ia a uma população de dezoito mil milhões e a um consumo de energia a nível mundial dez vezes superior ao dos nossos dias. Então se avançarmos mais um século, com esse mesmo crescimento, os números serão impensáveis.

A solução tem de passar por procurar métodos mais racionais e humanos e colocar um travão ao crescimento que vai destruir o planeta.

Claro que, a nível político, quem defender uma coisa dessas está a cometer um suicídio.

Mas alguém vai ter de abordar o assunto e tentar influenciar a orientação política de, por exemplo, a Europa. Porque senão vamos matar o planeta e sufocar a nossa própria sobrevivência.

Vai ser necessário fazer compreender às nossas crianças que gastar vinte euros para adquirir uma pequena e fixe capa de silicone para o ipod ou o iphone, que custa à Apple trinta e nove cêntimos, é uma besteira das grandes.

O maior problema reside no facto de os governos serem eleitos pelas massas, que, ao que sabemos, se estão a marimbar para a biodiversidade.

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