Pérolas e Diamantes: Entre a tradição oral e o facebook

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Lembro-me ainda com saudade das pessoas lá em casa se junta­rem à roda da lareira e contarem histórias.

Nas noites mais frias acendia-se a fogueira, a candeia e, sentadas no escano e nos bancos em redor do lume, as pessoas contavam coisas umas às outras. Quase todas as narra­tivas misturavam ficção com realida­de. A interpretação ficava a cargo de cada um.

Não havia rádio, não exista tele­visão e ninguém tinha dinheiro para esbanjar numa ida ao teatro ou ao cinema. Livros nem vê-los.

Contar histórias noturnas à luz da candeia e com as partes aquecidas pelo calor do lume era costume que sempre acompanhou a vida dos mais necessitados.

Mais até do que as próprias histó­rias, eram as sombras que as pessoas projetavam nas paredes o que metia medo.

Tudo aquilo ou se transformava em sonho ou em pesadelo.

As lendas passavam de boca em boca, as fantasias erguiam-se den­tro das nossas cabeças como espíritos que nos queriam arrebatar para o sítio das trevas que habitavam.

Por vezes as histórias vinham em forma de rima, resumindo a poesia, que, normalmente, nos sugeria a bele­za etérea das fadas, o sol nascente, tesouros escondidos ou então prínci­pes e princesas encantadas.

Havia sempre no grupo os que tinham um jeito especial para contar histórias ou então para as inventar.

Uns apreciavam contar relatos imprevisíveis, sempre na tentativa de arrancar da plateia exclamações de espanto ou medo.

Outros entretinham-se a dar alento à tendência para reproduzir as vozes teatrais, entusiasmando os ouvintes com a criação de várias personagens diferenciadas pelo timbre das suas falas.

Existiam os mestres da minúcia e dos fenómenos dramáticos, os espe­cialistas nas histórias de terror e os peritos nas de amor.

Havia ainda os que relatavam as tragédias povoadas de bobos, homún­culos, deuses desconhecidos e bruxos maquiavélicos.

Antes de a eletricidade chegar às nossas casas, eram os contadores de histórias os que nos ensinavam a ver o mundo, a modelar e a perceber as palavras, a espalhar a luz da história e do conhecimento.

As mulheres mais velhas eram sobretudo atreitas a contar histórias de bruxas, bruxedos, mezinhas, char­latões e charlatanices. Coisas ligadas ao sobrenatural.

Nos dias de trovoada lá vinha o esgotante terço e as distintas ladai­nhas para nos livrarem dos relâm­pagos, do mau-olhado e da fúria de Deus. De facto, quando Deus se arre­liava com os seus servos pecadores, os trovões com que se exprimia faziam tremer até o “passarinho” e a “passa­rinha” dos prevaricadores.

Os homens contavam histórias essencialmente didáticas que, com o seu exemplo, pretendiam fazer de nós rapazes práticos e precavidos, provei­tosos e exemplares no trato e na edu­cação, mas também na brejeirice.

Claro está que o teor das histó­rias dependia da ocasião e da audiên­cia. Era a tradição oral que se foi per­dendo.

As noites de inverno eram as mais talhadas para o efeito. Ao redor da lareira, as crianças mais velhas e mais impacientes, interrompiam os conta­dores com o intuito de que se evitas­sem os detalhes, pois queriam saber o fim da história. Se ele tardasse dei­tavam-se a adivinhar. As mais peque­nas iam para a cama apenas com uma história. Convinha não abusar, pois o repertório não era lá muito extenso.

Aquelas histórias aqueciam-nos tanto como o fogo ou como o vinho misturado com mel que esquentava na pichorra junto à lareira e que os adul­tos iam beberricando para lhes exci­tar a memória.

No Natal chegavam as histórias da origem, que envolviam o Menino Jesus, a Virgem Maria, o São José, os Reis Magos, a vaca, o burrinho, as ovelhas, os pastores, as estrelas, o ouro, o incenso e a mirra…

A família encarregava-se de que as histórias fossem passando de geração em geração.

Esse tempo acabou. Restam agora alguns livros espalhados pelas estan­tes que ninguém lê, mas que dão um ar da sua graça a quem vai lá a casa. É mais um bibelô que se olha com indi­ferença.

Na verdade já quase ninguém lê livros. Hoje lê-se a literatura instan­tânea no Facebook e no Twitter. O narrador é uma espécie de Narciso que espalha a sua vida quotidiana, comentando-a e convidando os outros a comentá-la.

É o vazio cultural. E, como todos sabemos, a cultura tem horror ao vazio.

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