Pérolas e Diamantes: Detalhes Alternativos

1013

Para mal dos nossos pecados, ainda teimamos em viver nesta dicotomia entre esquerda e direita.

Por agora, a direita liberal diz-se alternativa à direita alternativa e até à esquerda clássica. E a esquerda clás­sica, e informal, por seu lado, afirma-se alternativa à direita alternativa e à esquerda alternativa clássica.

Sendo que a direita alternativa é hoje alternativa à antiga direita alter­nativa, ou não, e à esquerda lato senso, ou quase. E a esquerda alternativa é alternativa à esquerda super híper alternativa, ou não, e à direita senso lato, ou talvez sim. Ou sopas.

Claro que esta alternativa toda, ou toda esta alternativa, mais não é do que um exercício útil, ou inútil, na sua própria preguiça.

E tudo isto resulta da velha leitu­ra apócrifa do novo evangelho sobre o velho testamento e da nova leitura interpolada do novo testamento sobre o velho evangelho.

Mas todos sabemos que é do novo caos que nasce a velha ordem. E tam­bém que é da nova ordem que ressus­cita o velho caos. Deus habita, e hesi­ta, entre os detalhes alternativos. Ou não.

Entretanto, os consumidores nor­mais de direita e de esquerda dedi­cam as suas vidas a comprar e a gas­tar, e os consumidores liberais da esquerda e da direita alternativas, ouvem nos iPods, ou nos concertos que frequentam, a sua world music e mastigam delicadamente a sua comi­da biológica.

Mas uma coisa nos deve preocu­par, como preocupou Charles Fourier [(1772-1837), considerado por Marx e Engels um dos pais do socialismo crí­tico-utópico], que encontrei por puro acaso na deliciosa leitura de Michel Houellebecq.

Para o filósofo francês, a grande questão social estava relacionada com a organização da produção.

Houellebecq, pela voz de uma das suas personagens de O mapa e o ter­ritório, considera-o um guru, não um pensador, daí o seu êxito lhe vir, não da adesão intelectual a uma teoria, mas antes da incompreensão geral, associada a um inalterável otimismo, em especial no plano sexual.

As pessoas necessitam incrivel­mente de otimismo sexual, pensa a tal personagem do escritor francês.

A grande questão para o intelectual francês é esta: porque é que o homem trabalha? Qual a razão de ele ocupar um determinado lugar na organiza­ção social e aceitar lá estar e cumprir a sua tarefa?

Os liberais pensavam, e continuam a pensar, que é pura e simplesmente pela ilusão do lucro. Mas é bem prová­vel que a resposta seja insuficiente.

Por seu lado, os marxistas-leninis­tas nem sequer se interessaram pelo assunto. Daí o comunismo ter fracas­sado. E a explicação é bem simples: mal suprimiram o ferrão financeiro, as pessoas deixaram de trabalhar, limita­ram-se a sabotar a sua tarefa. O absen­tismo passou a ser enorme.

Todos hoje sabemos que as socie­dades ditas comunistas foram incapa­zes de assegurar a produção e a dis­tribuição dos bens elementares. Uma sociedade incapaz de produzir, por exemplo papel higiénico e sabão, está condenada ao fracasso.

Fourier conheceu o Ancien Régime. Sabia que muito antes do aparecimen­to do capitalismo já haviam tido lugar pesquisas científicas, progressos téc­nicos e que existiam pessoas que tra­balhavam duramente, por vezes muito duramente, sem serem impelidas pelo ardil do lucro, mas antes por uma coisa bem mais vaga aos olhos dos homens práticos: o amor a Deus, no caso dos monges, ou, no nosso caso, a honra da função.

Nos tempos que correm todos que­remos ser artistas, políticos ou homens de negócios. Por isso é que outra per­sonagem de O mapa e o território canta a plenos pulmões, com um copo de vodka a tremer-lhe nas mãos, numa das tais vernissages do people que fre­quenta estas liturgias: “Gostava de ser artiiiista / Para o mundo recriar / Poder ser um anarquiiiista / E de bar­riga pró ar!”

Deixe o seu Comentário

Comentário