Pérolas e diamantes: desconversas justas

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Cito São Lucas (Lucas 16:10): “Quem é fiel no mínimo, também é fiel no máximo.”

E depois? Depois volto a citar São Lucas (Lucas 16:10): “Quem é injusto no mínimo, também é injusto no máximo.”

Isto pode parecer uma conversa entre irmãos, mas é essencialmente uma palestra entre predadores sociais. Ou melhor, são desconversas.

Eles falam mas não dizem nada, existem mas é como se nunca tivessem existido, roubam mas é como se nunca tivessem roubado. Dialogam mas não comunicam nada.

A estratégia pode não parecer credível, mas resultou em pleno. Em Portugal conseguiu mesmo fazer eleger presidente da República um peripatético comentador televisivo.

No fundo, o senhor alcançou compor uma versão shakespeariana de A Ceia dos Cardeais. É o triunfo do polígrafo Júlio Dantas. Pobre do Almada Negreiros. Pobres de nós.

Apesar de quase toda a gente o considerar um troca-tintas, o senhor alega que tudo fez para proteger a sua dignidade. Mas Cícero já há muitos séculos questionou este tipo de atitudes e de comentários: “Como pode haver dignidade onde não há honestidade?”

A nós aconteceu-nos assistir ao conto de fadas do fim para o princípio. Logo após o 25 de Abril vimos transformar-se a carruagem em carroça e logo depois a carroça converteu-se em abóbora. Os cavalos tornaram-se burros, que depois se metamorfosearam em ratos que puxavam a cabacinha da avó. E a Gata Borralheira nem chegou a perder sapato nenhum, pois o príncipe era um Capitão de Abril, bom a apaziguar a malta e a comer chouriço assado e caldo verde nas festas comunitárias.

Agora nascem no campo político os neoliberais como se fossem cogumelos venenosos. Bonitos mas tóxicos. E começam a falar com a sua voz fria e compassiva, com a evidente particularidade de chegarem atrasados, como a caridade sempre chega.

A noção interiorizada de que o mundo moderno é um fluxo contínuo à nossa volta que gira sem parar pertence ao mesmo tipo de abstração filosófica que nos admite pensar bem do período pré-histórico em que os guardadores de cabras desenhavam obras-primas nos seixos das margens dos rios.

Os nossos homens perfeitos, embora detestem a violência, são entusiastas colecionadores de borboletas. A beleza tem de estar presa num alfinete.

Francamente, esta dita aura nacional reformadora é folclórica, classista, maçónica e religiosa.

As ordens comunitárias são tão estranhas que só podem gerar sentimentos adversativos. O forro do capote não pode ser melhor do que a fazenda com que é feito.

Perguntaram um dia a Vladimir Nabokov se as ideias políticas podem resolver algum dos grandes problemas da vida duma pessoa. A resposta foi a seguinte: “Sempre me maravilhei com a limpidez dessas soluções: os ardentes estalinistas que se transformam em inofensivos socialistas, os socialistas que encontram porto tardio no conservadorismo, e assim por diante. Suponho que isto deve ter muitas parecenças com a conversão religiosa, da qual pouco sei. Apenas posso explicar a popularidade de Deus com o pânico dum ateu.”

Nabokov sabia que as únicas pessoas que florescem com todos os tipos de governo são os filisteus.

O Estado aumentou com o crescimento da economia, só que cresceu sem honra, isento de projetos, a não ser o de servir e alimentar as claques partidárias. Cresceu com Cavaco, desenvolveu-se com Guterres e manteve-se com Sócrates e Passos Coelho.

Basta olhar para as grandes empresas e reparar quantos ex-ministros e secretários de Estado, autarcas, assessores e outra rapaziada lá se encontra. Os que sobram estão nos escritórios de advogados, a praticar o luxuoso e bem pago jogo do tráfico de influências. Quase todos trabalham para se enriquecerem e empobrecerem os restantes. É um fartar vilanagem.

Governar nos tempos que correm é quase como fazer ações de espionagem, onde há sempre, como nos ensina John le Carré, um acima da linha e um abaixo da linha. Acima da linha é o que se faz segundo as regras. Abaixo da linha é como se faz o que é preciso fazer.

Vamos ver se este governo ziguezagueante se consegue manter em pé.

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