Pérolas e diamantes: as lindas carícias dos avarentos

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Uma das reações, que face à história, sempre me incomodou tem a ver com a forma de configurar o passado como sendo confortavelmente distinto do tempo que nos toca viver.

 

As sociedades que nos precederam são definidas como menos sofisticadas, mais rudimentares, austeras e estranhas. Tais atitudes apenas revelam um desejo coletivo de tranquilizar o cidadão moderno através do aviltamento das práticas do passado.

 

As guerras santas que grassam por esse mundo fora demonstram-nos que, mesmo cedendo ao lugar-comum, a história repete-se, primeiro como tragédia e depois como farsa.

 

Muitas vezes dizem-me, não sei se em forma de sarcasmo ou de elogio: “Não mudaste nada. Tens ainda a mesma aparência, o mesmo feitio”.

 

Penso cá para mim: “Os cegos por vezes também veem. Ou pensam que veem. Talvez não tenha mudado na aparência, aparentemente. Mas mudei em profundidade. A aparência está para chegar. Mas já não será aparência.” Depois sorrio interiormente. A idade permite-nos certos devaneios.

 

Sinto-me como Nino Sarratore, um personagem de Elena Ferrante, a viver num país provinciano onde todas as oportunidades são boas para nos queixarmos, mas entretanto ninguém arregaça as mangas para organizar as coisas e pô-las a funcionar.

 

Por cá mexe-se muito na vontade das pessoas, sempre com o intuito de retirar delas o que mais nos apetece, ou o que nos dá mais jeito. Aprendemos com os bonecreiros o poder de pôr tudo à cabeçada, ou à gargalhada. Levamos ao extremo a arte de agradar que, bem vistas as coisas, não passa da antiga arte de iludir.

 

A vontade das pessoas extingue-se como um fulgor, dissipa-se logo ao virar da esquina. Acariciamos a arte como o avarento faz ao ouro. Possuímos o mesmo sentido de partilha.

 

Damos nas vistas sempre fechados sobre nós próprios, metidos dentro da nossa escuridão pensando que é fulgor.

O segredo de manter um lugar consiste em nos movermos quando a populaça se move. O poder gosta de separar a história das suas personagens. E difunde a ideia que não se atraiçoa na política, pois a traição é coisa de novela de aventuras.

 

Aos mais crédulos gosto de lembrar um provérbio escocês que diz que não devemos tocar num felino sem pôr luvas.

 

Há mesmo aqueles que, usando luvas, continuam com as mãos gélidas. Aprendi com Machado de Assis que ninguém finge as mãos frias.

 

Um mestre de Teologia perguntou a um dos seus discípulos se um dia alguém lhe desse um presente e ele o não aceitasse a quem pertenceria esse presente. Ele respondeu que continuava a pertencer a quem o pretendia oferecer. Então o mestre disse que o mesmo é verdadeiro para a fúria, a raiva, a injúria e a inveja. E rematou: “Quando não são aceites continuam a pertencer a quem os carrega consigo.”

 

Conciliar princípios é uma atitude digna, mas creio agora que conciliar homens é, apesar de tarefa mais difícil, uma atitude bem mais sensata e proveitosa.

 

Há um velho ditado árabe que diz: “Não sejas tão mole que te espremam nem tão duro que te partam.”

 

Definitivamente, o mundo não se divide entre bons e maus, progressistas e reacionários. Nós e eles. O mundo real está cheio de grandes combinações cromáticas, que até costumam derivar para outros tons quando se misturam entre si. No mundo real não existe só a cor cinzenta da uniformidade.

 

Por hoje remato com outro axioma muçulmano. Pergunta: “O que é que sugeres para eu castigar um difamador?” Resposta: “Corta as orelhas a todos os que escutam as suas mentiras.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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