Pérolas e diamantes: A identificação de um beijo

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Por uma curiosa coincidência, ando a ler dois livros ao mesmo tempo: São Paulo, de Teixeira de Pascoaes; e Judas, de Amos Oz.

Amos Oz, escritor israelita, vive em Jerusalém, onde, na sua opinião, há muita gente que quer ser o messias e salvar o mundo. Ao DN afirmou: “Vão para lá para serem crucificados ou para crucificar os outros. É o destino da cidade desde sempre, porque não se fica indiferente a Jerusalém.”

De facto, ninguém consegue ficar indiferente a esta cidade milenar, goste-se ou não dela. “Ninguém se aborrece por lá.”

Acusam-no de ser um escritor controverso. Ele responde que escreve romances e não canções de embalar. “O papel da literatura é agitar o leitor e causar a necessidade de reexaminar ideias e crenças. Não estou a vender gelados e guloseimas, esse não é o meu negócio.”

Sobre as possibilidades de paz é cauteloso e pragmático: “Levou dois mil anos para acontecer esta coexistência. Daí que seja estranho acreditar que o Médio Oriente fique em paz ao fim de meio século.”

O seu livro coloca Judas como o fundador do cristianismo, o que é uma bonita provocação. Oz justifica esta postura com o facto de o beijo de Judas, e do pagamento de 30 dinheiros (cerca de 600 euros) a alguém que era rico, não ser lá muito convincente. Por isso, Samuel, o protagonista do romance, elabora uma versão alternativa. Judas é o mais crente em Jesus, ainda mais crente do que o próprio Cristo. E quando o beijou para o identificar, fê-lo desnecessariamente, pois todos sabiam perfeitamente quem era Jesus.

São Paulo também andou por Jerusalém, mas morreu, muito provavelmente, decapitado em Roma, por ordem de Nero. Paulo foi apelidado por alguns dos seus como Anticristo. E chegaram a chamar às suas igrejas sinagogas de Satã.

São Jerónimo dizia que é inútil tocar lira diante de um jumento.

Segundo Teixeira de Pascoaes, atacado violentamente, o santo reage violentamente, mas é incapaz de odiar. O seu ódio é amor defensivo. Apodera-se do apóstolo a indignação. Escreve então a célebre Epístola aos Gálatas. Afirma os princípios fundamentais do seu Credo. “Afirma e não demonstra. Nem a Verdade se demonstra: afirma-se.”

E foi precisamente isso o que fez Ascenso Simões na sua Epístola aos Militantes Socialistas em artigo escrito para o Ação Socialista.

O título, violento, diz-nos logo ao que vem: “Rangel – uma cabeça doente.”

O deputado socialista por Vila Real zurze no comportamento de Paulo Rangel em Bruxelas, onde tenta “limitar a capacidade do país de se afirmar nas negociações com a Comissão Europeia”.

Para Ascenso Simões “Rangel tem para si uma ideia só – existe quando vai para além da decência”. Acusa o deputado europeu do PSD de não estar a defender os interesses de Portugal e, o que é mais grave, ou talvez não, de “não suportar o funcionamento da democracia”.

Acusa-o de nos enganar com a sua pretensa prosápia não populista, pois “Rangel é um deputado da direita radical, um insuportável agente que deixa mal Portugal.”

Paulo, na sua Epístola aos Coríntios, a primeira conhecida, escreveu: “Uns têm fome enquanto outros estão ébrios.” Andava, também ele, a difundir a Verdade, mas, segundo Pascoaes, ela “é inútil para os ouvidos mentirosos”.

Da luta entre titãs resulta sempre “o esqueleto dum arcanjo caldeado nas fornalhas da Babilónia”.

Volto a Teixeira de Pascoaes: “A ferocidade, mesmo enlouquecida, tem a sua lógica, obedece a uma direcção intencional, interior a ela mesma e é ela em conhecimento de si mesma. A ferocidade é um ser, como a loucura. (…) A imagem que projetamos nos outros, reflete-se logo sobre nós. Não há melhor espelho. (…) Cada entrudo tem a sua máscara.”

E finalizo, citando outra vez o escritor de Amarante: “Trabalhamos, quase sempre, a favor dos nossos inimigos.”

Espero bem que não seja este o caso.

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