Pérolas e Diamantes: A fome e a ratoeira

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A situação política em Espanha, mas sobretudo na Grécia e em Portugal, revela que o cama­rada Kondratiev tinha razão: “Não há revolucionários sem revolução.”

No entanto, a miséria continua a disseminar-se por esse planeta fora. O jornalista, e romancista, Martin Capar­rós resolveu percorrer o mundo na tentativa de encontrar a resposta a uma pergunta: O que é a fome?

Dessa viagem global nasceu um livro: A Fome, onde o autor argentino nos dá conta de muitos casos dramá­ticos e de um sistema complexo que exige respostas complexas.

Numa entrevista à LER afirmou sem papas na língua que “cada vez mais é preciso fazer jornalismo contra o público”.

Caparrós considera que a influên­cia do politicamente correto faz com que escondamos as coisas que que­remos dizer ou que digamos muito menos daquilo que pretendemos afir­mar.

Com o politicamente correto, esfor­çamo-nos por subutilizar a linguagem, refugiando-nos no “burocratês”.

Apesar disso, ou por isso mesmo, existe uma causa ativa que lança milhares de pessoas para fora do sis­tema, que não servem para nada. Exis­te atualmente um sistema que não sabe como pode aproveitar milhões de pes­soas, mas, ao mesmo tempo, reconhe­ce que não as pode deixar morrer, porque parece mal.

Martín Caparrós não se ilude nem deixa que nos iludamos: “Não digo que os queiram matar, mas que se pudessem deixá-los morrer, deixa­vam, porque não sabem o que hão de fazer com eles. A crise dos refugiados é prova disso.”

Ouviu muita gente, em sítios muito diversos. Passou horas a escutar o que tinham para lhe dizer. O que mais o entristeceu foi o facto da maioria das pessoas não vislumbrar nenhu­ma saída para a sua situação de fome e miséria. No máximo falam-lhes de Deus. Diz que conheceu poucos famin­tos ateus.

Por isso critica a religião organiza­da porque, na sua opinião, “se milhões de pessoas não acreditassem que a sua única saída é esperar que Deus lhes dê algo, procurariam outra solu­ção”.

O papel da religião foi sempre o de acalmar aqueles que não têm nenhu­ma razão para estar calmos, porque lhes falta o essencial. Convencem-nos até de que sofrer é bom.

Chocado com a realidade e com o papel da religião na desculpabilização da fome e da miséria, zurze na Madre Teresa de Calcutá como em centeio verde. Há uma frase famosa da Madre que cita no livro, em que ela falava sobre o bonito que é ver o sofrimento dos pobres.

“Não é bonito, é terrível. Uma ideo­logia que admite que o sofrimento dos pobres é uma coisa bela, é terrível.”

Por exemplo, a Índia é o país onde mais pessoas passam fome. E isso acontece há gerações e gerações. “São pessoas que não só estão resig­nadas como, mais do que isso, vivem meias vidas, com um desenvolvimen­to físico e intelectual muito diminuído. São cerca de 800 ou 900 milhões.”

Entretanto, aqui na Europa, asso­biamos para o lado. Longe da vista, longe do coração. Aqui continuamos a pensar nas cotas leiteiras e no subsí­dio para a vaquinha. Está bom de ver que um indiano é bem menos impor­tante do que uma turina made in UE.

Esse facto lembrou-lhe um cidadão indiano que lhe disse que numa pró­xima encarnação queria ser uma vaca europeia, pois dessa forma recebia muito mais dinheiro do que nesta sua pobre situação.

No entanto, o cidadão europeu que preenche o impresso estandardizado para receber o seu subsídio da União Europeia não deve esquecer que só uma ratoeira oferece queijo de graça.

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