Pérolas e Diamantes: A essência do engano

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A História e a vida ensinaram-me a acreditar que é perigoso acreditar muito no que quer que seja. Uma outra coisa aprendi por mim próprio: a verdadeira decadência implica não levar nada demasiado a sério. Sobretudo a arte decadente. Mas também as ideologias. E ainda a religião.

Philip Kerr, no seu livro “O Projeto Janus”, põe o padre Bandolini a atribuir a culpa de toda a Reforma à cerveja forte. Para ele, o vinho é uma bebida perfeitamente católica, porque torna as pessoas ensonadas e cúmplices. Já a cerveja torna-as agressivas. Por isso, os países que consomem muita cerveja forte são sobretudo protestantes. E os países onde se bebe muito vinho são católicos romanos.

Já os russos emborcam vodka que é uma bebida que ajuda a atingir o perdão, pois não tem nada a ver com Deus. Por isso é que agora os comunistas andam a bater com o punho direito no lugar onde lhes fica o coração.

Em verdade vos digo: a essência do engano, pelo menos na opinião de Bernie Gunther, um ex-agente dos serviços secretos, e personagem principal do livro de Kerr, não é a mentira que se diz, mas as verdades que se contam para a apoiar.

Desconfio sempre das ditas qualidades pessoais dos designados como políticos mediáticos. Desconfio da sua oratória demasiado assertiva e folclórica, do seu enorme ativismo, dos seus dotes invulgares de atores, porque, dessa forma, pretendem encobrir a sua falta de convicções políticas sérias.

O seu objetivo principal é apenas aparecerem na fotografia, satisfazendo assim a sua “mediopatia”, a sua necessidade de serem queridos e admirados, o seu desejo de protagonismo.

Por isso é que é frequente ouvi-los dizer uma coisa num dia e no seguinte afirmar exatamente o contrário e, sobretudo, dizer a uns e a outros o que cada um deles quer escutar.

Raramente participam nas discussões de ideias. Esperam que as partes em conflito, por convicção ou por esgotamento, decidam a seu favor e cheguem a um acordo. Nessa altura, armados da sua oratória e autoridade de líderes, limitam-se a reafirmar a posição vencedora e a ratificar o acordo.

Não têm posição séria sobre nada, ou quase nada, a não ser seguir o seu inefável desejo de continuar no cargo que ocupam ou em conseguir outro melhor.

São pessoas de ação porque a sua vida depende disso. Vão a toda a parte, assistem a todas as reuniões, festas e homenagens, batizados, bodas e funerais.

Em vez de resolverem os problemas, adiam-nos ou transformam-nos em problemas diferentes. Adiam tudo para a última hora.

Nietzche apercebeu-se que os seres humanos não conseguem suportar demasiada realidade. Defendia que a verdade é nociva para a vida. Por isso abominava a nossa diminuta moral pequeno-burguesa.

O pior é deixarmo-nos acreditar que temos razão por já a termos tido. Não há nada que mais nos agrade do que ver um tipo a dar cabo de outro. Uma coisa aprendi ao longo destes anos: os mentirosos nunca mentem, apenas alteram a verdade. Até porque a ser mentira, a sua mentira, é apenas boa, é somente uma mentira nobre, uma mentira oficiosa, uma mentira salvadora.

Afinal, a quem interessa a verdade?
Górgias, que viveu quatro séculos antes de Cristo, disse que a poesia (naquele tempo a ficção ou o romance) é um engano em que quem engana é mais honesto do que quem não engana, e que quem se deixa enganar mais sábio do que quem não se deixa enganar.

Após estes anos todos, continuo a fazer a mesma prece que Reinhold Niebuhr: Senhor, concede-nos a graça para aceitarmos com serenidade as coisas que não podem ser mudadas, coragem para mudar as que devem ser mudadas e sabedoria para distinguir umas das outras.

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