Periscópio: Um país sem rei nem roque

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1 – Para quem viveu os alegres momentos do PREC, a seguir à revolta militar de 25 de abril, o que se está a passar ultrapassa de longe esses tempos. Na altura as coisas eram sérias. Viviam-se tempos de mudança. Mudança de mentalidades, de paradigma, quer na instituição militar, quer a nível social, político, partidário, cultural.

Acalmada a situação com a extinção do Conselho da Revolução, pacificadas as Forças Armadas, com uma Constituição aprovada, os partidos consolidados, os governos a tentarem governar, embora alguns tenham durado poucos meses, a verdade é que Portugal foi-se endireitando, procurando ombrear com os demais países europeus, dentro das suas fracas possibilidades económicas, beneficiando do facto de ser aceite, de braços abertos, em tudo quanto era instituição europeia e mundial.

A abundância de dinheiro, porém, parece que deu a volta à cabeça de muita gente.

E não foi apenas o povo a embandeirar em arco, a gastar o que tinha e o que não tinha, mas esperava que viesse, como foi vindo da União Europeia.

Vai daí, os banqueiros pensavam que tudo eram razões para emprestar dinheiro a rodos aos particulares e empresas, muitas vezes sem garantias seguras. Claro que aquela situação só podia dar para o torto. Como deu e se está a ver.

É que não houve da parte dos políticos que nos governaram nos últimos trinta anos, o discernimento para dizerem quando deveríamos ter parado com esta euforia de viver como ricos, coisa que não somos.

E chegámos aqui. Mais uma vez à penúria, ao resgate.

A procissão ainda vai no adro. Pois outras situações estão a vir ao de cima e a mostrar como tinha razão o general romano que disse, há quase dois mil anos existir nestas terras um povo que não se governa nem se deixa governar. Má sina a nossa.

Agora começamos a descobrir que aqueles que nos deviam defender, governar, orientar, a quem pagamos, não trabalham, não se preocupam connosco, nem com as nossas vidas.

Apenas alguns exemplos: a generalidade das entidades reguladoras não regula nada, nem nos defende de quantos nos querem explorar.

O Banco de Portugal é acusado de não nos defender dos banqueiros ladrões e corruptos.

As armas da PSP desapareceram pro falta de supervisão, disse a ministra.

Os presos de Caxias fugiram da cadeia e andaram à vontade em Espanha porque ao Director das prisões não ocorreu que seria necessário um Manual de Procedimentos.

No fisco o dinheiro foi parar aos offshores por causa do sistema informático, dizem.

Pergunta-se, então, para que queremos tantos ministros, secretários de Estado, chefes e directores-gerais, a quem pagamos principescamente, com muitas dificuldades da nossa parte.

2– Imigrantes. Longe vão os tempos em que os nossos imigrantes eram respeitados no estrangeiro, não só por serem bons trabalhadores, mas também por serem honestos e não meterem a mão no alheio.

Agora começam a chegar-nos notícias de portugueses, na maioria jovens ou de meia idade que nas terras onde se encontram emigrados vão semeando exemplos de má fama para a generalidade dos nossos emigrantes. É que ainda que os que se comportam mal sejam uma minoria, comem todos por tabela.

É uma vergonha que o termo “português”, que em Itália, já há muitas dezenas de anos, era usado para acusar os nossos nacionais de fazerem a “recolha” de coisas que não lhes pertenciam, pelos vistos agora é moda ter a honra e o proveito por essa Europa fora. Isto para vergonha dos bons portugueses honestos, que são felizmente a maioria.

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