Periscópio: SOBRE O NOSSO PORTUGUEXIT

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1 – No início da década de setenta, já se estudava na Faculdade de Direito de Lisboa o direito europeu. Havia a preocupação de olhar para a Europa, ou melhor, para a Comunidade Económica Europeia (CEE) como entidade importante e agregadora dos diferentes países do velho continente, praticamente, na altura, apenas com o países fundadores.  A CEE havia sucedido à Comunidade Europeia do Carvão e Aço (CECA), criada após a Segunda Grande Guerra, numa tentativa dos pais fundadores dessa entidade evitarem que, aqui, na Europa, voltassem a registar-se conflitos sangrentos como os dois que assolaram estas nações na primeira metade do século XX. Estamos a falar, entre outros, de Adenauer, Curchill, De Gasperi, Jean Monnet e Schuman.

Os actuais líderes europeus já não são desse tempo, não se lembram, não sofreram, não leram ao menos sobre o que se passou. Parece.

Desde aquela altura, embora com a nossa entrada ainda longe, já havia gente que pensava que mais tarde ou mais cedo Portugal poderia fazer parte desse grupo. E em todo o caso sempre nos interessaria estar próximo dessas nações e comungar dos mesmos princípios e valores.

Foi deste modo que desde a minha juventude, há cinquenta anos atrás, comecei a olhar para a Europa. Isto é, olhar para os países ricos do centro da Europa com outros olhos, numa perspectiva de futuro, à mistura com um certo sentimento de inveja. É que íamos passear por essa Europa fora, mesmo no final de setenta e início de oitenta e, apesar de viajantes, turistas, diríamos agora, ainda éramos vistos como os pobres do sul da Europa, olhados com desconfiança, como mendigos, atrasados, mal educados e sujos. Na generalidade dos países da Europa, por exemplo, na França e Alemanha e Suiça, pensava-se que os portugueses eram todos  como os emigrantes que tinham ido para essas terras à procura de melhores condições de vida. Mas a ideia de um dia poder ser olhado de forma diferente ficou lá sempre. E um dia aconteceu. E sou muito feliz por isso.

Assim, fiquei sempre agradecido a quem, por portas e travessas, nos conseguiu introduzir na CEE. E estou a lembrar-me de Ernâni Lopes, por exemplo.

Como mudou Portugal nas três últimas décadas? Nós os mais velhos sabemos dar valor a essas mudanças. Os mais novos já nasceram num país a fazer vida de rico, portanto não sabem o que foi viver no século passado, à moda do antigamente, nas condições que só mós sabemos e que eles, os mais novos, nem conseguem sequer imaginar.

2 – Então vejo-me nesta situação de, eventualmente, empurrado por uma qualquer Catarina, ter de decidir se quero estar na Europa rica, democrática, organizada, responsável por nos trazer até aqui ou regressar ao nível de meados do século passado?

Eu não quero.

Habituei-me a ver na Europa, na União Europeia (EU) um espaço de liberdade, de igualdade de oportunidades, de livre circulação de pessoas e bens. Uma EU onde me sinto respeitado, ao contrário de antigamente.

Viver numa Europa onde viajo sem ser necessário passaporte, sem ter de ir carregado de outras divisas, onde me posso estabelecer e trabalhar se assim o desejar.

Os inglese entenderam sair por referendo e parece que já estão arrependidos. Foi a sua opção. Eles lá sabem. Mas a Grã-Bretanha, querendo sair e embora formando uma ilha, não deixa de por tais factos de pertencer à Europa e de merecer ser tratada como tal. A Grã-Bretanha é só um dos pilares da NATO. E bastaria para alguns políticos europeus terem mais cuidado com o que dizem e fazem. A começar no Sr Junker.

Fiquei irritado quando vi os deputados ingleses erem tratados como foram no Parlamento Europeu. E não gostei de escutar palavras de vingança, de desdém por terem querido sair. Alguém, chegou a por a hipótese de o inglês deixar de ser uma língua a usar futuramente na UE. Isso não cabe na cabeça de ninguém. Parece que a França e outros países da actual UE esqueceram quem os ajudou, por duas vezes, no mesmo século, a voltar a ser o que eram. Foram os ingleses e os Estados Unidos da América que salvaram a Europa de um regime ditatorial que nunca saberemos no que daria. A Europa não tem o direito de tratar deste modo a Grã-Bretanha. Não querem continuar juntos. Muito bem. Puseram-se de fora. Mas precisamos da Grã-Bretanha como eles precisam dos restantes países da Europa. Sinto-me bem por essa Europa fora e também na Grã-Bretanha. Sinto-me europeu e ao mesmo tempo português. E o mesmo tenho sentido da parte de outros cidadãos europeus, ao longo destes anos, noutras partes, quando viajo pela Europa fora.

Façam e façamos tudo o que for possível e necessário para manter a Europa unida. Parafraseando outros, deixem lá os amanhãs que já não cantam. Deixem-se de tolices, segregadoras. Criticavam Salazar por defender o “orgulhosamente sós” e agora querem eles voltar ao mesmo regime? É?

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