Periscópio: Para onde vai a Europa?

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Nos últimos tempos, temos assistido ao começo de um debate que tardou a iniciar-se, mas que já tardava, como o demonstram os últimos acontecimentos registados em vários países. Estou a falar dos ataques que têm sido perpetrados por fanáticos de direita, nacionalistas, e por fanáticos que se dizem religiosos, ligados ao islamismo.

Não é fácil escrever e falar sobre estes temas. E são ainda poucos os que abertamente se pronunciam sobre estas questões. A Europa, Portugal incluído, viveu durante todos estes últimos anos em estado de negação. Procurou evitar discutir estes problemas com medo das reacções de países do Médio Oriente, produtores de petróleo e que estão por detrás de muito do que se está a passar. Refiro-me, como agora já se diz à boca cheia, ao financiamento que esses países e alguns dos seus cidadãos prestam a estes fanáticos religiosos, alguns convertidos à pressa e que se tornam os mais perigosos.

Mas a Europa – e quando digo Europa refiro-me à sua classe dirigente, aos políticos em geral – esteve também calada, com medo de ofender os emigrantes que foram chegando aos milhares, em busca de uma vida melhor. Isso em si não é mal nenhum. Os nossos emigrantes também percorreram esse caminho. Hoje estão integrados na sua grande maioria. Mas as diferenças entre os nossos emigrantes e estes novos emigrantes são muitas. Elas situam-se ao nível cultural, dos costumes, tradições, religião e postura perante os direitos e os deveres consagrados em leis, ou meramente assentes nessas tradições e costumes, que evoluíram muito na Europa nas últimas décadas. Esse caminho foi feito na Europa sem sobressaltos. Noutros países, muitas vezes influenciados por forças estranhas, obscurantistas e reacionárias, alegadamente assentes  em regras morais de cariz religioso, isso não aconteceu. Pelo menos em parte. Quem anda por essa Europa fora, vê as fotos e os vídeos que lhe chegam pela Internet ou visita um qualquer país de maioria muçulmana, pode verificar que há culturas que defendem valores  e princípios que não se comparam com aqueles em que assenta a cultura europeia, de matriz vincadamente cristã, mas em regimes políticos laicos, onde impera a separação entre a religião e o Estado.

Estas diferenças culturais postas nas mãos, analisadas e defendidas por pessoas fanáticas e que não conseguiram acompanhar os ventos da história da humanidade. Que não são capazes de distinguir entre o passado e o presente, que analisam os factos ocorridos há centenas de anos com os olhos de agora, ou vice-versa, constituem muitas d as razões para a crise que estamos a atravessar.

Não vale a pena perder muito tempo a defender que o grupo ou comunidade A ou B tem o direito de viver assim ou assado, quando nos seus países de origem apenas existe o assado. É que essa forma de viver pode contender com a cultura, a forma de viver dos restantes habitantes deste ou daquele país, com as suas leis, os seus costumes e  tradições. E a verdade é que os que defendem esse multiculturalismo, esquecem que nos países de origem desses emigrantes, quem lá quiser viver tem de se submeter, de forma completamente exclusiva aos seus costumes. Não há, em regra, qualquer tipo de espaço para meios termos ou uma vivência diferentes daquela. Caso contrário, rua ou cadeia.

A forma como são tratadas as mulheres, as leis que se baseiam em princípios e determinações de cariz religioso, tal como foram pregados e escritos há centenas de anos, as imposições a que devem obedecer na sua vida privada, tudo contribui para criar fossos entre os que aqui sempre habitaram e os que chegam. A inculturação é impossível, salvo em casos muito raros.

Por exemplo, cada um é livre de se vestir como muito bem entender. Mas se a forma de vestir é muito diferente da tradicional de um determinado país e neste caso, dos países ocidentais, origina logo à partida a segregação, uma diferenciação. E quem se autossegrega é quem chega. Não quem está.

Depois vêm costumes e leis de cariz religioso que contendem com o ordenamento jurídico em vigor na generalidade dos países ocidentais. Não é possível conciliar tudo isto sem um respeito mútuo muito grande, pelos direitos e deveres que a convivência em sociedade impõe.

Mas a resposta também não é a que alguns nacionalistas querem impor. Por esse caminho também não se vai a lado nenhum.

Há que pôr os olhos em países que conseguiram estabelecer princípios de convivência sem os seus habitantes se atropelarem uns aos outros. E há muitos exemplos por esse mundo fora.

Para terminar, quero acrescentar que também não vale a pena entrar num jogo de passa-culpas. O importante é que os problemas sejam debatidos abertamente, que exista muito respeito mútuo e que sejam combatidos os excessos, venham eles de onde vierem.

Haja esperança, pois a generalidade das pessoas quer viver em paz e isso é o que o interessa. Vamos passar tempos duros, mas a humanidade via vencer.

Ao martírio do Padre Jacques respondeu o Imã da comunidade muçulmana de Lisboa, David Munir, repudiando aquele assassinato e aconselhando os muçulmanos que não se sentirem bem entre nós a partir e a deixarem-nos em paz.

Registei este tomada de posição. Que outras se sigam.

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