Periscópio: Os políticos e o povo

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1 – Marcelo. “O melhor que temos é o povo. Não é que os políticos também não sejam bons, mas o povo é melhor que os políticos“. Marcelo dixit. E disse uma grande asneira, provocatória, não pensada e enganosa.

É que os políticos saem do povo. E a generalidade do povo gosta da confusão, do arranjinho, da cunha, da negociata, de ficar com o que não lhe pertence, de se baldar ao trabalho, de enganar o Estado, de se desenrascar, nem que para isso tenha de passar à frente de alguém. E ainda há o povo que cospe na rua, que deita papéis para o chão, que põe os cães a cagar na rua, que anda com o carro a fazer uma fumarada dos diabos mas não o leva à oficina, que fala ao telemóvel enquanto conduz, que diz asneiras a torto e a direito, que o que quer é chegar à reforma, que não lê, que acredita em tudo quanto as televisões lhe impingem, que leva porrada mas a esquece facilmente a troco de uma miserável prebenda. E não podemos esquecer os que podem passar mal em casa, mas se apresentam com brutos carros, que passam férias no estrangeiro com dinheiro emprestado pelos bancos, que compram tudo a crédito. E os que não estudam, nem taralham, mas querem ter o que tem quem trabalha, poupa, se esforça e se aplica.

Logo os políticos não são piores nem melhores que o povo. Os políticos são o povo e como o povo: no geral, ignorante, vaidoso, invejoso, matreiro, desleal, chico-esperto, mal-criado, calaceiro.

Nem todos somos assim. É verdade. Mas é ou não verdade que há muita gente assim?

No dia seguinte a ter proferido aquela barbaridade, Marcelo corrigiu a tirada, dizendo que, afinal, os líderes é que não são fracos, não prestam. Quis colocar-se fora do grupo dos políticos e mais uma vez, talvez, colocar-se acima da generalidade dos políticos. Marcelo pode não ter muitos dos defeitos que acima apontei a uma boa parte do povo. É verdade. Mas matreirice tem que chegue. Vão ver um dia destes. E vão olhando para as atitudes e as frases matreiras, assassinas que vai proferindo, à laia de comentador, que é o que ele sabe fazer bem.

Marcelo tantas há-de dizer que terá um dia de engolir muita coisa. Agora tem contraditório.

2 – A Caixa Geral de Depósitos. Ai não que não quero saber o que se passou e se passa com a CGD! Claro que quero. E com certeza também a maioria do povo quer saber que é feito dos muitos milhões que desapareceram. E nem se pode dizer que não deixaram rasto. Toda a gente sabe para onde foram. Assim, de que estão à espera para avançar com o tal inquérito. Se estamos perante um verdadeiro caso de polícia, nem percebo como ainda ninguém foi preso. Estamos perante um dos maiores roubos de que os portugueses foram vítimas, crimes cometidos debaixo dos nossos olhos, à vista de todos e ninguém reagiu. O regime está podre. Só assim se pode compreender esta situação.

Que andaram a fazer os tais políticos, retirados para lugares de sonho, prateleiras douradas, a ganhar milhares, e a desbaratarem o património da CGD que é  – era! – de todos!

Porque não se prende quem concedeu empréstimos sem as devidas garantias, a favor dos amigos da política e dos negócios?

Eu quero saber. Que avance o inquérito. Que se averigue quem prevaricou e se condene e meta atrás das grades quem nos roubou. Sim, nos roubou, porque a CGD é um banco público, é “nossa” como se dizia noutros tempos. O dinheiro malbaratado é nosso. Se desapareceu nas mãos de meia dúzia, por conivência dos administradores, estes são também responsáveis. Que o entreguem, o paguem.

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