Periscópio: Mentiras e licenciaturas vão de escada

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Por estes dias tem feito correr muita tinta a questão dos falsos licenciados que se vêm demitindo do Governo, não sem antes causarem estragos na imagem própria e de quem os tem colocado em lugares de topo para os ajudarem na governação.

O problema das falsas ou inexistentes licenciaturas já vem de longe. Lembremos as licenciaturas de Sócrates e de Relvas, dois expoentes e tristes exemplares do descalabro e da mentira vergonhosa que se instalou neste país, com as facilidades criadas pelos políticos que têm estado à frente do Governo, dos ministérios e designadamente do ministério da educação. Pelos vistos aquele ministério de educação tem muito pouco, porque se fosse um organismo da administração pública que funcionasse a sério, nada disto aconteceria.

Mas os casos têm sido tantos e de tamanha gravidade que dizem bem do estado a que a governação do país chegou. Abaixo darei conta de outra situação com origem neste ministério.

Pois já não bastavam os cursos das Novas Oportunidades de triste memória, criados no tempo do governo de José Sócrates. Foram criados cursos low cost para que professores do ensino primário e educadores de infância pudessem ascender ao grau de licenciatura. Foi vê-los – a alguns, não a todos, porque ainda há muita gente com bom senso e pudor – mas em número muito significativo, a correrem para Paredes, Mirandela, Macedo de Cavaleiros e com certeza para outras vilórias onde foram, a seu tempo, criadas escolas ditas de ensino superior, para permitirem o surgimento de tantos licenciados. Claro que a maior parte nem invoca a sua “licenciatura” por vergonha, digo eu. Alguns até se deram ao luxo de continuarem os estudos, fizeram teses ou compraram-nas para terem o grau de mestre e mesmo de doutoramento, em diferentes áreas. Daí a lecionarem em escolas superiores e Universidades foi um passo. Depois o resultado está à vista. Os alunos nem sabem ler nem escrever, quanto mais demonstrarem conhecimentos específicos nas áreas em que pretensamente estudaram.

Em Vila Real, como todos estamos lembrados, ficaram famosos os cursos de IP 4 em direcção a escolas situadas ao longo desta via.

E há aquele caso de um secretário de Estado, que antes de ser chamado a esse cargo, dizia para um amigo, professor de uma escola de Vila Real que mostrava alguma relutância em se meter, já com alguma idade e bastante tempo de ensino, a obter uma licenciatura, que o que interessava era que se matriculasse. Depois, a licenciatura lá viria. Tal e qual… mais palavras, para quê!

Apenas para explicar que muitos professores aproveitaram essa oportunidade sugerida pelos governantes apenas para poderem chegar ao topo da carreira docente, ou ao último escalão e poderem obter condições mais vantajosas de reforma.

Compreendo, mas não concordo, não aceito. É uma fraude para os professores, para os alunos, para o país. Uma vigarice legalizada por quem tinha a obrigação estrita de promover e defender a qualidade do ensino.

Por tudo isto, é uma vergonha o que se tem passado, com os novos “licenciados” na mentira. Pois o que interessa mais? A licenciatura ou os conhecimentos que qualquer pessoa tenha para desempenhar uma função? Depois andam com troca de acusações. Estão todos errados.

Mas vejamos uma prosa, ou melhor os termos integrados num pequeno texto que há dias respiguei num jornal da região, escrito por um desses licenciados de IP4, embora numa área dita jurídica, texto onde o autor fez questão de, com pompa e bem evidente, colocar o “Dr”, a seguir ao seu nome.

Assim, nesse texto vi escrito os seguintes termos: “mecher”, “establecimento”, “Kilo”, “colocamolos”, entre outras pérolas. De acentuação, então é melhor nem falar. Mas quer nas rádios, quer nas televisões, que nos entram todos os dias pela porta ou pela janela dentro, é fácil ouvirmos os locutores dizerem: “faz-las”, “fariam-as” ou “fazeriam-as”. E tantas outras alarvidades, numa ignorância de meter dó. Em analfabetos ou pessoas sem estudos, ainda vá que não vá. Mas em licenciados…

Parece que o espírito de Relvas e Sócrates, que, como sabemos fez exames ao domingo, ficou por aí pairar e vai ser difícil desaparecer, tal a ganância, a mentira, a farfateirice, a pouca vergonha e ignóbil falta de educação e ausência de valores e princípios que atingiu o país e de um modo especial os nossos líderes ou candidatos a líderes. Sim, porque muita desta gente que anda pelos gabinetes, começa por chefe de gabinete de qualquer coisa e depois consegue chegar a secretário de Estado e a ministro. Quantas vezes isso já aconteceu. Salvam-se as honrosas excepções, que infelizmente são poucas.

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