Periscópio: geração atraiçoada

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A minha geração e as que nos antecederam sofreram na pele as consequências de uma primeira república perdulária, gastadora, desorganizada, dominada pela carbonária, onde os governos se sucediam uns aos outros sem resolverem os problemas reais do país.

Ainda houve quem quisesse meter ordem na geringonça da altura, usando métodos mais musculados, ali pelos anos vinte do século passado, mas assassinaram o homem, porque não lhes agradava o estilo e impedia uns quantos de continuarem a governar-se e aos dos seus grupos.

Até que, no final da mesma década, em 1926 e depois mais a sério em 1928, os militares foram obrigados a pôr cobro aos desmandos daquela cáfila e tomaram o poder.

Serenados os ânimos e amortecidos os choques, aninhados os políticos interesseiros e desgovernados, os militares entregaram o poder ao Dr Oliveira Salazar. Este, beirão dos duros, conhecedor dos meandros do poder e farto de saber quem era os políticos que tinham conduzido o país àquele estado, meteu mãos à obra, fundou o Estado Novo, à sua imagem, chamando-lhe ostensivamente “ditadura”, fez aprovar uma Constituição à sua medida, rodeou-se dos melhores que pôde arranjar, indo buscar às Universidades lentes e professores seus colegas e amigos e começou a recuperar a economia. Pôs as contas em ordem, à custa de muitos sacrifícios.

Só os comunistas não lhe perdoaram e lhe davam que fazer. Mas ele também soube como dominá-los, criando os meios necessários para isso e não se coibindo de os mandar prender e deportar. Coisa que, compreensivelmente, os comunistas também nunca lhe perdoaram.

Evitou a entrada de Portugal na Segunda Grande Guerra e desenvolveu o país conforme pôde, apenas com o dinheiro que ia retirando ao povo, que vivia na miséria. Mas o essencial não faltava. Construiu hospitais, escolas, universidades, estradas, portos. Criou uma frota de navios de comércio que ligavam Portugal às colónias.

Por outro lado poupou dinheiro e comprou ouro.

Mas esqueceu-se de resolver o problema do Ultramar, dificultou a ida dos nossos emigrantes para as colónias em vez de os incentivar. Guardou o ouro em vez de desenvolver o país. Deixou que se criassem alguns monopólios enquanto a maioria do povo permaneceu na miséria. Abriu estradas que ficaram pelo MacAdam. A electricidade não chegava à maior parte das aldeias. Por fim enviou centenas de milhares de homens combater no Ultramar.

Acabou por cair da cadeira e deixou uma série de problemas por resolver. Mas o país era seguro, à força, mas era seguro. O Estado não tinha dívidas.

Veio o golpe de Abril de 1974 e foi o que se viu até hoje. A bagunça, o desperdício, o assalto ao poder, pelos partidos de esquerda, primeiro. Depois pelos interesses instalados de todos outros partidos. O compadrio tornou-se doença endémica. Pior do que no tempo de Salazar.

Hoje, quando ouço dizer que a geração dos nossos filhos é a primeira mais pobre a seguir à nossa, querendo dizer que se seguirão outras e culpando por isso a economia, quando dizem que “é a geração que a economia atraiçoou”, apetece-me chorar, porque rir não posso. É que não foi a economia que atraiçoou a geração dos nossos filhos. Foram antes os desmandos da classe política da nossa geração e da que nos antecedeu, que gastou o dinheiro e o ouro que o velho ditador cá deixou, em festas, foguetório fátuo e sentados à mesa farta do orçamento, enquanto durou. A cáfila pensou que a cozinha continuaria a servir os pratos suculentos dos empréstimos bancários, das artimanhas, da corrupção, das negociatas com os amigos, do dinheiro fácil e a rodos, para eles, filhos, afilhados e enteados. Mas isso acabou. E quem gasta o que não tem, passa a andar de chapéu na mão a pedir.

É aí que Portugal se encontra por culpa dos nossos políticos da nossa classe dirigente. Não. A culpa não é da economia. Deixem-se de tretas que só servem para enganar o povo que anda distraído e se contenta com papas e uns bolos de vez em quando.

 

 

 

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