Periscópio: Eu gostava de ter um cão

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Gostava mesmo muito de ter um cão. Até porque, na minha casa da aldeia, onde nasci e onde vivi, sempre houve cães. E mesmo depois de sair de lá, para me fazer à vida, continuou a haver cães. Até há poucos anos. Ou melhor, até há meses.

E, claro, gostaria muito de ter um cão, aqui, em Vila Real, na minha casa. Um cão que ladrasse, quando sentisse algo de estranho. Um cão que, fiel ao dono, me defenderia de qualquer perigo. Um cão que me viria lamber as mãos e o rosto de cada vez que eu chegasse a casa. Um cão que me demonstraria todos os dias o seu afecto e sairia comigo para onde quer que eu fosse. E um cão que fizesse companhia a quem, por qualquer razão tenha de ficar em casa. Podia ser grande ou pequeno. A cor também não interessaria. Muito menos a raça. Os arraçados, os sem raça, os vadios, muitas vezes são os melhores, porque souberam e viram o que custa a vida, quando tiveram de dormir ao relento, passar fome, apanhar frio e chuva. Gosto muito de cães rafeiros. Cães que têm dono, mas são livres. Andam por onde querem, não têm coleira, nem sinais de alguma vez a terem usado. Não gosto de coleiras. Nem de nada que se possa parecer com esse horroroso instrumento. Demonstra prisão, falta de liberdade, tortura. Gosto de cães, a sério, daqueles que nos encontram quando deambulamos pelas serras e atravessamos alguma aldeia e nos acompanham de imediato, sem se preocuparem se alguém está a ver. Não querem saber se vamos bem ou mal vestidos, andrajosos, pau nas mãos. Não se assustam com isso, nem nos temem. Aproximam-se de nós, a abanar a cauda, contentes por estarem na presença de alguém como eles. Livres, soltos, sem trela, nem a tal coleira.

Pois! Mas gostava de ter um cão, que eu não precisasse de levar à rua, para lhe proporcionar um espaço onde ele pudesse fazer as suas necessidades, logo pela manhã, cedo.

E se fosse um cão que não precisasse de ir à rua, isto é, um cão que não defecasse, isso era ouro sobre o verde. Verde? Ah! Sim! O verde dos jardins desta minha cidade, que vejo conspurcar no dia a dia, por cães, de coleira, de trela e por vezes de açaime, enquanto os donos falam ao telemóvel. Cães que, depois de fazerem aquilo a que a necessidade os obriga, vêem os seus donos partir, alegremente, como se não tivessem nada a ver com “o assunto”. Deixam para trás os poios, por vezes bem volumosos, a cheirar mal e a queimar a relva que alguém, com carinho colocou, rega e vai aparar de vez em quando, tendo como paga o ter de suportar, juntamente com as aparas, o transporte de coisas que deveriam ser apanhadas pelos donos desses cães. Felizes, esses cães! Podem defecar na relva de qualquer jardim público da minha cidade. Podem fazer o mesmo, nas ruas por onde ando todos os dias, deixando as suas marcas perenes, de um amarelo torrado, bem visíveis. E ninguém os incomoda. Os cães podem fazer coisas na rua e nos jardins proibidas aos seres humanos. Ah! Grande criatura de Deus! Será que Ele os fez diferentes? Com mais direitos?

E quem tem e leva os cães à rua ou ao jardim na nossa cidade não são analfabetos, ignorantes, gente diminuída, tonta, sem dois dedos de testa. Pelo menos aparentemente! São pessoas com formação. Apenas não sabem ou não conhecem as responsabilidades que sobre elas impendem por serem donas de um cão.

Talvez seja chegada a altura de os nossos autarcas fazerem como aquele presidente de Câmara, em Itália, que, farto de aturar a falta de educação e zelo pela coisa pública e pelos demais concidadãos, começou a enviar pelo correio, em envelope, bem acondicionado, o resultado do alívio dos cães, com o sugestivo título e provérbio adequado: “O SEU A SEU DONO.”

Ora, aí está uma forma de algumas pessoas ganharem consciência das suas responsabilidades, por serem donas de um cão.

Cá fico à espera.

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