Periscópio: Como eu compreendo os americanos!

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À semelhança de muitos comentários e entrevistas que escutei durante as duas últimas semanas, também eu tenho a minha ideia sobre o que se passou na América.

A maioria das pessoas, cá e na América, ficou admirada com o resultado das eleições realizadas naquele país. No fundo ninguém acreditava que Trump pudesse um dia vir a ser presidente dos USA. Mas, afinal, Trump é o novo presidente da América.

E como eu compreendo os americanos!

Compreendendo-os pelas mesmíssimas razões que não me admirariam se um dia, em qualquer país da Europa, e designadamente em Portugal, um outsider da política, seja da extrema esquerda ou da extrema direita, com todos aqueles defeitos que se apontam a gente que perfilha essas ideologias, pudesse ganhar umas eleições seja para a presidência, seja para formar governo.

Para além da bazófia dos Clinton e até dos Obama, que os levou a pensar que as eleições estavam ganhas à partida, efectivamente, a maioria dos americanos não queria nem a senhora Clinton, nem o Trump. Nenhum lhes servia, não tinham confiança em nenhum deles. Portanto, parece que escolheram o mal menor: votaram em Trump.

E tenho para mim que a razão principal por que votaram desta maneira, foi exactamente por estarem fartos do sistema que vigora na América e que vigora na maior parte dos países europeus e de um modo muito especial em Portugal.

Também eu não concordo com o Trump e as suas ideias.

Também não achei piada nenhuma à forma encontrada pelo nosso António Costa para chegar ao poder. Mas o que António Costa fez – e até certo ponto, a aliança à esquerda já foi um sinal nesse sentido – foi dar razão a quem está contra o sistema que se instalou em Portugal e que faz com que se tenha instalado no poder uma clique que se vai governando à nossa custa e não quer saber de nós para nada a não ser para lhe darmos os votos quando eles muito bem entendem.

E quero desde já acrescentar que desta clique fazem parte políticos de esquerda e de direita, se quisermos, do PSD e CDS e também do PS: estão lá todos bem representados. O BE e o PCP são cliques à parte.

Vejamos que um primeiro sinal já tinha sido dado pela eleição de António Marinho e Pinto, facto que na altura causou muita estupefacção. Mas os sinais já lá estavam. Aliás, esses sinais de desejo de mudança há muito tempo se notam na sociedade portuguesa. O problema é que as cliques têm a coisa de tal maneira controlada que ainda não se conseguiu romper o círculo vicioso, do agora vais lá tu e depois vou lá eu.

Andamos há muitos anos a ser governados por um conjunto de pessoas, que são, depois de eleitos ou mesmo antes, bajulados por uns condes que apenas querem estar sentados à mesa do orçamento e que ajudam a manter a situação, que príncipes, duques e viscondes se esforçam por alimentar.

E são sempre os mesmos.

Olhe-se para a gente da cultura e do mundo da canção que na América se vieram colar aos Clinton para que ela ganhasse a presidência. O mesmo aconteceria cá – e acontece cá de cada vez que se realizam umas eleições. E isso tanto se passa a nível nacional, como a nível local. Observem o número de pessoas que se colam aos partidos que ganham, não por lhes reconhecerem mérito na sua acção ou por entenderem que podem fazer um bom trabalho, mas apenas porque estão sentadas à mesa do orçamento e ali querem continuar a ficar.

Se um dia, a nível nacional, acontecer uma ameaça ao sistema como a que aconteceu na América, iremos assistir à mais vergonhosa mudança de muita gente que se diz de esquerda e até de direita, os ditos intelectuais, os chamados homens e mulheres da cultura, que irão fazer declarações de apoio a candidatos do sistema. Simplesmente porque, para eles, o sistema não pode acabar.

A maioria da malta de Lisboa está-se borrifando para o povo da província, que trabalha, que produz, que cria riqueza, que se preocupa em fazer grande este país. Eles apenas pensam neles, só neles e nada mais. Teriam medo de perderem as mordomias, as casas da Câmara que habitam por uma renda miserável, as prebendas faustosas, os favores imerecidos, os diferentes mas sonoros palcos em que, apalhaçadamente, se revelam e se promovem uns aos outros de forma nojenta.

Por isso, como eu compreenderei um dia uma mudança neste sistema. Mudança provocada por esta atitude mesquinha de muitos que apenas pensam no seu sujo umbigo e vivem para a sua barriga bem nutrida, julgando-se o centro do mundo.

VR, 9 de Novembro de 2016

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