Periscópio: Comboio de Vila Real a Lisboa

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1 – Linha do Douro electrifica­da. A notícia já era esperada. Em surdina ainda, mas ouvia-se dizer, aqui e ali, que o Governo pode­ria anunciar a electrificação da linha de comboio do Douro, para já até à Régua.

Para todas as populações que vivem neste interior e de um modo espe­cial ao longo da linha, que se esten­de do Porto até ao Pocinho, vem tra­zer outras facilidades de transporte. Um meio mais cómodo, mais rápido e menos poluente e provavelmente mais barato.

Mas a vantagem principal que ante­cipo e oxalá se venha a concretizar é a possibilidade de, após a realização dessa obra, não haver desculpas para a ligação directa de comboio, sem necessidade de mudança de composi­ção, entre esta região e Lisboa.

É que ainda recentemente foi publi­cada uma grande reportagem sobre os constrangimentos que existem no sis­tema ferroviário nacional. Dizia o estu­do que esteve na origem dessa repor­tagem que o principal constrangimen­to era constituído pela dificuldade em proporcionar ligações directas, em virtude da rede contar com poucos tro­ços ou linhas completamente electrifi­cadas. Esta situação leva a que os pas­sageiros tenham por vezes de apanhar três e quatro comboios, para se deslo­carem dentro do território nacional e muitas vezes para realizarem peque­nas distâncias. Ora, esses factos des­motivam as pessoas a utilizarem com mais frequência as viagens de com­boio. Fica-lhes mais barato e gastam menos tempo utilizando os autocarros, que os levam de locais perto das suas residência até bem cerca dos seus locais de destino.

Este foi o resultado do investimen­to exagerado no alcatrão em prejuízo do transporte por ferrovia. Há mesmo o caso ridículo da linha da Beira Baixa que está electrificada e arranjada, em quase toda a sua extensão, mas falta realizar a obra num peqeuno troço, na região da Guarda. O resultado está à vista. Há cerca de dez anos que ali não passam comboios apesar das obras feitas. Falta de dinheiro, mas principalmente falta de planeamento e de responsabilização de quem este­ve à frente das empresas ligadas a este transporte.

Oxalá se comece a olhar para o transporte por ferrovia com outros olhos.

Agora, é altura de dar início à luta pela ligação de comboio entre Vila Real e a Régua. Com oito mil estudantes na UTAD na maioria de outras regiões, bem necessário se torna fazer esta ligação. E não será assim tão difícil realizar esta obra, a qual pode utilizar pelo menos em parte alguns troços da antiga linha do Corgo. Será, a partir de agora, um desafio para os nossos políticos, prin­cipalmente os responsáveis autárqui­cos. Quanto à rentabilidade, podemos dizer que está assegurada. Basta aten­tar nas largas dezenas de autocarros que todos os dias, mas de um modo especial aos fins de semana, saem ou passam por Vila Real a caminho de Lisboa, Porto e outras cidades, e em sentido inverso, transportando estu­dantes e demais população.

2 – Associações profissionais. Estava a ouvir rádio, no passa­do dia 15 de Dezembro, e, a certa altura, foram passados alguns tempos de antena. Um deles foi da responsabilidade da Associação do Técnicos Administrativos das Autar­quias Locais. Apresentou-se um diri­gente desta associação que, com voz empolgada, anunciou terem-se rea­lizado, recentemente, num único fim de semana, um Congresso, dois coló­quios, em Elvas, num dos quais, dada a proximidade, teriam também parti­cipado colegas de Badajoz. Esperava eu que fossem apresentadas as con­clusões, propostas… sei lá! O resul­tado de tanta actividade junta. Nada disso. O sujeito falou das maravilhas de Elvas, da forma como foram acolhi­dos, agradeceu a mil e uma empresas e entidades e autarquias, que contri­buíram com apoios. Continuou com os elogios à organização, aos funcioná­rios que tinham preparado tudo muito bem, aos participantes e oradores, acrescentando que os alojamentos e as instalações eram impecáveis. Falou do acolhimento que tiveram em Bada­joz e – ó espanto meu! – terminou com a leitura da mensagem do Presiden­te da República dirigida aos partici­pantes, que, como imaginam, foi muito bem escrita, mas apenas com pala­vras de circunstância, do género blá, blá, blá…

Como disse acima, sobre resulta­dos, resumos das intervenções, con­clusões úteis para os colegas espa­lhados pelo país, os benefícios para uma melhor prestação de serviços por parte das autarquias e seu pessoal ao público, que lhes paga, nem uma pala­vra.

Com senhores destes à frente das mil e uma associações e demais orga­nizações de trabalhadores, que por vezes até estão dispensados dos servi­ços, durante dezenas de anos, a vive­rem das quotas dos associados e de subsídios, das autarquias e empresas que giram à volta das autarquias, bem se vê para que serve muitas vezes o nosso dinheiro. Para o deleite e fanfar­ronice de uns quantos. Nada mais.

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