Periscópio: A reabertura de tribunais é uma falácia

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É tudo mentira. Mas há quem goste de ser enganado. E há os que aceitam a mentira sem pestanejar. E ainda há a parolada que come tudo o que os diferentes poderes lhe querem impingir, de forma acrítica, despojada de bom senso e meticulosamente engendrada, para tapar o sol com a peneira, que é como quem diz, envolver o povo na mentira descarada, mas de maneira a ser aceite como grande conquista.

A anterior ministra da Justiça não fez um bom trabalho. É verdade. Mas talvez o que deu mais nas vistas e foi mais contestado, pelo menos pela anterior bastonária da Ordem dos Advogados, em conluio com alguns autarcas, foi o encerramento de alguns tribunais. Ou seja, para mim a única reforma de jeito levada a cabo pela ministra anterior, foi a mais contestada. Os magistrados, Judiciais e do Ministério Público, aceitaram esta reforma, sem pestanejar, por um lado por ser razoável, mas também por outras razões que têm a ver com o prestígio profissional e com o seu estatuto remuneratório. No restante, a ministra continuou a saga dos ministros anteriores, desde a ministra Cardona, do CDS, de má memória, passando por ministros advogados, o actual Primeiro-ministro, até chegarmos a esta ministra.

As reformas na Justiça têm-se sucedido desde há muitos anos. Mas desde que se tornou moda mexer nos diferentes códigos, os problemas, em vez de se resolverem, começaram a agravar-se cada vez mais. Por outro lado, o poder concedido ultimamente aos juízes, na minha opinião, nada resolveu e até contribuiu para agravar alguns desses problemas.

Por outro lado, a passagem para outras instâncias, fora dos tribunais, de questões que nunca deles deveriam ter saído, nada resolveu. Diminuiu o trabalhos dos tribunais. É verdade. Mas não foi de encontro aos problemas que os cidadãos querem ver resolvidos. Há uma ou outra excepção, mas que não passa disso mesmo: uma execpção. Vejam-se os atrasos que se verificam nos inventários, passados para os notários. Os divórcios e regulações das responsabilidades parentais passados para as conservatórias.

E já não falo na criminosa vergonha que é o péssimo funcionamento da generalidade dos tribunais administrativos e fiscais, e mesmo dos processos que se iniciam nos Serviços de Finanças, da responsabilidade inicial do respectivo ministério.

Depois, com a informatização e a criação o Programa CITIUS, pretendeu-se reduzir a burocracia, evitar os consumos de papel, passando os processos a existir sem suporte físico. Uma falácia. Os processos continuam a existir e a exibir resmas de papel. E agora muito mais papel. É que, por cada requerimento de duas simples linhas, exigem-se no mínimo três folhas. Três folhas no tribunal e em cada um dos escritórios dos advogados intervenientes.

E que dizer das queixas do sistema quando este não funciona? Ou o tempo que se gasta a enviar requerimentos para o processo? Ou o tempo gasto pelos magistrados para lançarem um simples despacho de duas palavras?

Enfim…

Mas esta ministra, em vez de mexer naquilo que era importante, como por exemplo desdobrar secções de família e execuções, de trabalho, preferiu preocupar-se em, dizem, reabrir tribunais, onde talvez venha a colocar um funcionário, para servir de caixa de correio, acender as luzes e, de vez em quando, talvez uma vez por semana, ou menos, atender e apoiar o magistrado que ali irá realizar alguma diligência. Se a isto se chama reabrir um tribunal, então eu não sei o que é e como funciona um tribunal.

Mas, como escrevi no início, há quem goste de ser enganado e até há quem goste de colaborar com a mentira, ainda que saiba que tudo não passa de uma farsa, apenas para agradar ao seu eleitorado. Eleitorado que adora ser enganado, levado na cantiga de políticos menores e sem escrúpulos, como são uns quantos presidentes de Câmaras, alguns de concelhos bem próximos. Estes não passam de prestidigitadores baratos, movidos pelo poder fátuo, pelo prazer passageiro de se sentirem importantes, quando a única fonte dessa importância, na maioria das vezes, deriva apenas da sua ascensão a esses cargos pela omissão de outros mais competentes, e de um modo especial pela sua subserviência aos chefes partidários e às suas não menos despiciendas qualidades para a trapaça, o populismo barato, a demagogia grosseira e a ambição desmedida de obter pela política aquilo que nunca conseguiriam nas suas ocupações profissionais.

Mas a política em Portugal presta-se a isso. E é pena que uma magistrada, nas funções de ministra da justiça, se preste a servir os caprichos políticos desses senhores, em vez de olhar para os problemas verdadeiros da Justiça, daquela Justiça com letra grande que os cidadãos desejariam ver resolvidos.

27/Dez/2016

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