Passos Perdidos: Vai ser bom termos tido um Trump

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Donald Trump não esperou para dar ao Mundo a resposta à pergunta que ainda andava no ar, desde o dia da eleição: “Será que ele vai ser, como presidente, diferente do que foi como candidato?”. A resposta foi um rotundo “não”. Em apenas 10 dias, Trump virou as políticas interna e externa dos Estados Unidos do avesso, prometendo uma presidência memorável e fazendo antecipar tempos onde rumores, notícias e sketchs de comédia se vão escrever praticamente sozinhos todos os dias.

Apesar de não ser imune à histeria coletiva, parece-me ser avisado usar de alguma prudência na análise. Fazer futurologia a 4 anos de distância é arriscado, mas sou até da opinião de que este Trump, nestes Estados Unidos, podem vir a ser, no final deste mandato, a melhor coisa que nos podia ter acontecido. Vejamos as razões. Sente-se no mundo ocidental, de há uns anos a esta parte, uma certa tensão social em crescimento lento. Apesar de uma paz global de 70 anos, as democracias, sobretudo, sofrem de uma falta de interesse das populações, da apatia e mesmo de um certo descrédito por parte dos cidadãos.

Dentro deste cenário, qual o melhor país para testar uma liderança populista? Estou certo que os Estados Unidos são a resposta certa, por muitos danos que os poderes presidenciais de Donald Trump possam ameaçar fazer nos próximos tempos. Convém começar por dizer que Donald Trump não é o homem ignorante, inculto e irracional que alguns se apressaram a desvalorizar intelectualmente, representando uma certa direita americana que se move nos círculos sociais dos estados litorais mas que é eleita essencialmente pelos estados do interior.

Por seu lado, os Estados Unidos da América são uma democracia construída de raiz, que teve em atenção as monarquias absolutistas da Europa para elaborar uma constituição cujo principal objetivo é precisamente não permitir uma acumulação de poder exagerada no presidente. A separação de poderes nos Estados Unidos é uma instituição sagrada, que funciona em dois planos. Ao nível federal, o poder executivo está fortemente limitado pelo legislativo (Senado e Câmara de Representantes) e também pelo judicial, como se viu já com a decisão de vários juízes a anular os efeitos do decreto anti-imigração. Não chega ao presidente ter a vontade política de impor uma agenda, ela tem de ser negociada e o próprio partido Republicano vai querer manter esse poder, como fez questão de mencionar na questão do muro na fronteira com o México, uma medida que necessita de fundos a serem obrigatoriamente aprovados em Congresso. Por outro lado, o poder federal é fortemente restringido pela independência dos estados, como também se viu quando os mayors de várias das principais cidades admitiram desde o início não cumprir com a ordem executiva, para proteger os seus cidadãos sem documentos. Acresce que o poder do Presidente sobre as agências governamentais, sendo legítimo e efetivo, não é acompanhado de uma mudança dos chefes departamentais por nomeação. Uma Administração profissional serve também de barreira a alguns abusos.

Mas é nas relações internacionais, onde Trump tem mais margem de manobra de determinar o rumo do país, que, curiosamente, o presidente dos Estados Unidos mais se vai sentir constrangido. A decisão de enfrentar Pequim numa altura em que a China estará ansiosa por poder assumir uma liderança definitiva na região pode ser custosa e contraproducente. Apoiar o Brexit atacando a União Europeia na argumentação, pode fechar mais portas do que as que pode abrir. E sugerir o fim da NATO, ao mesmo tempo que dá o flanco à Rússia de Putin, pode ser a peça que falta no puzzle. O jogo diplomático tem regras próprias, como Maquiavel ensinou há 500 anos e como o presidente do México mostrou ao anular a visita aos Estados Unidos.

Finalmente, a opinião pública pode ser o maior problema de Trump. É certo que o novo presidente tem o voto popular, pelas regras americanas, mas a democracia não se esgota no voto e um combate na opinião pública pode ser o motor necessário à reinvenção de algumas regras democráticas. Para já, estão milhões nas ruas a debater política. Quem com ferros mata, com ferros morre, e para Trump os ferros foram a comunicação criativa, especialmente via internet.

E tudo isto em apenas 10 dias! Que vai ser interessante, ninguém duvida…

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