Passos Perdidos: Um ano novo recheado de política

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O início de um novo ano é sempre um tempo de balanços e de projetar o futuro. A ciclicidade do calendário conjuga-se com as fragilidades do ser humano e a tendência é esquecer o que correu menos bem para nos concentrarmos nos desafios que aí vêm, na ânsia de, face a uma nova página em branco, escrever uma história diferente.

Politicamente, não sei se o ano de 2016 será um daqueles que ficará na história, imune a esta voragem de mudança e aos eternos recomeços. Certo é que é costume dizer-se que sem saber de onde se vem, não se pode compreender para onde se vai e que, certamente, sem ter em mente o ano que agora findou, não se pode tentar vislumbrar que marcos poderá ter o ano de 2017. A verdade é que o ano que agora começa vai ser fértil em eleições, que são os momentos chave onde, em democracia, se podem dar estas mudanças.

Já em janeiro, Donald Trump assume funções como Presidente dos EUA. É certo que a data que ficará na História é a da sua eleição, mas como assistimos nos últimos dias, Obama ainda foi a tempo de mostrar que até ao dia da passagem de testemunho, é ele que manda. Será um enorme teste à robustez do sistema político norte-americano de checks and balances, do equilíbrio e da regulação da mão invisível. Trump não quererá desapontar e prevejo bastantes perturbações, nomeadamente na política externa, nas relações com o médio oriente, com a China, mas também com a União Europeia logo nos primeiros meses de exercício.

Precisamente a União Europeia terá várias oportunidades de entrar em alvoroço durante este ano. Logo em março, ocorrem eleições legislativas na Holanda, um dos países fundadores, sendo que atualmente todas as sondagens indicam que a extrema-direita vai na frente. Num dos países com melhores indicadores de integração de imigrantes, pergunta-se, mais do que as causas destas sondagens, as possíveis consequências.

Já em abril e maio teremos as duas voltas das eleições presidenciais francesas e também aqui o cenário não é o melhor para a União Europeia como a conhecemos. O berço da democracia representativa e dos valores da liberdade, da igualdade e da fraternidade, pode estar na iminência de ser capturado por Marine Le Pen, que já provocou, pelo menos, uma viragem à direita nos partidos que tradicionalmente se colocam no centro-esquerda e no centro-direita.

Em setembro, o outro parceiro do eixo Berlim-Paris que vai dominando os destinos da União vai também a votos, embora, ao contrário de François Hollande, neste caso a Chanceler Angela Merkel vá tentar a reeleição. Tal também se deve ao facto da sua popularidade não ter caído como a de outros líderes noutros países, e não se antevê, num cenário normal, que a extrema-direita, apesar da subida nas sondagens, possa ameaçar a vitória de um dos partidos tradicionais. Obviamente que os resultados de qualquer um dos outros atos eleitorais referidos anteriormente podem ditar uma mudança na opinião pública e colocam, pelo menos, algumas reservas a prognósticos demasiado definitivos.

Por último e mais importante para nós, teremos também eleições autárquicas. Não releva para os efeitos de ordem mundial das anteriores, onde Portugal aparece hoje como um oásis de estabilidade, segurança e paz social. Mas são fundamentais para a nossa política interna e, mais importante ainda, para a nossa vida local. Serão um momento de avaliação dos 4 anos de mandato, mais interessantes ainda porque, em muitos locais, a limitação de mandatos ditou viragens políticas em 2013. Cá, como em muitas outras terras deste nosso Portugal, será altura de olhar criticamente para trás e questionar se, afinal de contas, foi ou não foi bom deixar outros fazer de maneira diferente e mostrar como se pode virar um concelho, no bom sentido da expressão.

Estou certo que revisitaremos estes temas durante 2017 neste espaço, com mais detalhe.

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