Passos Perdidos: As eleições autárquicas e a globalização política

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Os tempos que vivemos colocam desafios de escala interessantes. Com efeito, temos sido bombardeados com notícias quase diárias de problemas políticos de dimensão planetária, ou, pelo menos, situando-nos geopoliticamente, problemas da ordem de grandeza dessa figura suprarregional a que nos habituamos a chamar o “mundo ocidental”. Falo de eventos como Trump, o Brexit, o crescimento dos nacionalismos ou da crise da União Europeia. É um ponto assente que estes assuntos nos entram pela porta dentro como consequência lógica da globalização e do acesso direto à informação por via do on-line, mas, filtrados os efeitos destas notícias na discussão da espuma dos dias, qual a sua real importância na vivência política, do ponto de vista do cidadão? Parece-me que, não obstante estar o cidadão, hoje, munido de muito mais informação para discutir estes temas do que estaria, há 30 anos atrás, para discutir a Perestroika, o quadro não difere muito quando analisamos os resultados práticos e a importância relativa dos temas.

Primeiramente, temos desde logo um problema com o excesso de informação. Quanto mais ideológicas e profundas são as questões onde tentamos intervir, mais difícil se torna separar o essencial do acessório no meio do conjunto de informação disponível, certamente mais do que é possível processar sem ajuda. Por outro lado, não são apenas as pessoas e as comunidades que vivem hoje completamente em rede, mas são também os próprios problemas que se relacionam entre si de forma intrincada e interdependente. Assim, se quisermos sustentar uma opinião relativamente a qualquer assunto macro, imediatamente começamos a desenrolar um novelo que nos obrigará a tocar vários outros assuntos conexos. Finalmente, o discurso público tem revelado uma tendência crescente para a radicalização de posições, onde esta complexidade que retratei se esbate rapidamente em posições de “preto ou branco”, ou, mais amiúde, de “comigo ou contra mim”. Como a experiência de vida ensina a todos, mais frequentemente do que imaginamos ao início, a resposta mais adequada à maior parte das questões deste tipo está num qualquer matiz de cinzento, isto quando não exige abertura de espírito para procurar ver a cores…

Vem esta questão a propósito da reflexão sobre a necessidade de brevemente, em Portugal, nos ir ser exigida a abstração das discussões da alta esfera mundial para, em cada município e freguesia, nos debruçarmos sobre o exigente papel de fazer escolhas sobre questões bem mais simples. Porque, verdadeiramente, quando falamos em política local, mais do que a ideologia, contam as pessoas. Mais do que direções políticas vagas, de pronto-a-vestir em qualquer território, contam as propostas concretas para as realidades que conhecemos na nossa rua ou no nosso bairro. Mais do que panfletos com intenções, contam as ações e as omissões de políticos que, antes de o serem, são nossos concidadãos, que connosco se cruzam no café, na avenida ou no comércio e que sabemos serem de carne e osso e feitos da mesma massa que nós, porque os vimos crescer. É também por isto que, nas eleições locais, é substancialmente mais fácil fazerem-se pontes entre diferentes partidos e entre estes e a sociedade civil, os chamados independentes, porque o partido de todos é a nossa terra e o melhor para a nossa terra deve ser a única preocupação a guiar a atuação política local, mesmo se não for do interesse circunstancial do partido de cada um.

Em suma, as eleições autárquicas são mais sobre pessoas do que sobre partidos e são mais sobre ações do que sobre intenções. Também em Vila Real assim será, quando começarem a ser conhecidos os protagonistas e os respetivos projetos com que vão propor o futuro próximo da nossa terra. O que se deseja é ter na rua verdadeiros movimentos cívicos, abertos à participação de todos, transversais à sociedade, inclusivos e, na medida do possível, contando com contributos, nas mesmas fileiras, de gente que até pode pensar diferente sobre grandes questões filosóficas, mas que se identifique na vontade de ver a sua terra avançar.

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