Passos Perdidos: A ditadura dos indicadores económicos

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No mundo de hoje, a informa­ção é tudo. E, por vezes, mais importante até do que o conteú­do, é a forma como comunicamos que é realmente relevante. Numa socieda­de onde a velocidade a que a infor­mação flui e onde o tempo que esta­mos dispostos a investir na aquisi­ção e compreensão da mesma é curto, importa comunicar de forma eficaz. É, no outro lado da moeda, um terre­no propício a pós-verdades e outros neologismos que têm mais a ver com a ética da mensagem do que com a informação em si mesma. É este o principal motivo pelo qual aque­les que lidam com comunicação e estatísticas gostam particularmente de indicadores simples, que possam ser transmitidos de forma impactante, ainda que por vezes possam ser vagos ou ambíguos.

Entram neste grupo uma gran­de parte dos indicadores de Econo­mia que, apesar de terem nascido e fazerem parte de uma ciência social, devem à vertente matemática desta a facilidade com que são calculados, agregados e comparados, nacional e internacionalmente. Ninguém duvida da bondade e até da importância que tem para a governação o acesso a esta informação, mas devemos, enquanto sociedade, limitar-nos a tentar maxi­mizar o PIB ou atender a determinados limites de défice ou de dívida, quan­do escolhemos o caminho a seguir nas políticas a implementar? Será que informação que nos dá apenas respos­tas de “sim” ou de “não” a perguntas complexas é informação relevante, ou assemelha-se mais a ruído?

Note-se que não se trata aqui de um problema de conhecimento científico ou até de disponibilidade de informa­ção. O crescimento exponencial das estatísticas recolhidas dá-nos, atual­mente, hipótese de sistematizar uma quantidade muito maior de fenóme­nos do que aqueles puramente econó­micos, e isso é feito. Sabemos até, com comprovação científica, que a par­tir de um determinado nível de rique­za, mais produção não leva a mais feli­cidade, numa dada sociedade. Não se trata de falta de informação ou da falta de indicadores, mas antes da sua não utilização e valorização por aque­les que têm o poder de regular, legis­lar e decidir, em primeiro lugar, e por aqueles que têm o dever de exigir que tal seja feito, por outro.

Parece-me que todos temos algu­ma responsabilidade nas mensagens que deixamos que nos passem. Penso que estará na hora de começarmos, enquanto cidadãos, a exigir que a avaliação de projetos públicos seja feita com base em mais do que aná­lises custo-benefício e que passemos a estar mais recetivos a acatar e valo­rizar os impactos que algumas políti­cas possam ter noutros indicadores. Se é certo que ter contas públicas em ordem deve ser um desígnio nacio­nal, pode ter chegado a hora de colo­car num patamar de igualdade os indi­cadores que medem, por exemplo, a taxa de desemprego, a qualidade do ar nas cidades, a percentagem de cidadãos a viver em pobreza, as opor­tunidades de tempo para atividades de lazer ou o tempo efetivo de con­vivência com filhos bebés, entre tan­tas outras. Mas colocá-los mesmo em pé de igualdade significa manifestar a mesma intransigência com o cum­primento de metas de felicidade, qua­lidade de vida e bem-estar dos cida­dãos que temos manifestado para com os indicadores económicos. Signifi­ca impor a nós mesmos um qualquer Memorando de Entendimento quando as metas não forem cumpridas e exi­gir correção de desvios, custe o que custar.

A crise financeira, que ainda atra­vessamos, pode ser entendida como a prova de que o sistema social, econó­mico e político que criámos para viver em sociedade deve girar em torno da ideia de que o dinheiro é um fim em si mesmo. Mas pode também ser enten­dida como um momento de rutura, em que a excessiva dependência dos fato­res económicos leve ao entendimento de que o dinheiro não é um fim, mas um meio, e que o que realmente inte­ressa na nossa vida em comum é a criação de valor, não necessariamen­te monetário. Mesmo que esta mudan­ça de paradigma nos obrigue a inven­tar novas soluções para velhos pro­blemas.

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