Para onde corre este Rio?

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As eleições diretas para a liderança no PSD tiveram lugar no passado sábado, como culminar de um processo que se iniciou, verdadeiramente, na noite das eleições legislativas de 2015. Se a alguém surgiu claro nessa noite que, pouco mais de 2 anos depois, não só Passos Coelho sairia da presidência do PSD, como essa saída seria um alívio para os seus militantes, esse alguém teria de estar nas trincheiras da futura Geringonça, e mesmo entre os seus, teria receio de apostar esse palpite com demasiada ênfase. Já do outro lado, naquela noite, faziam-se apenas contas a mais quatro anos de governo da aliança de direita, perspetivando apenas quem sucederia a António Costa como o líder socialista que serviria de muleta a essa aliança minoritária.

Chamo esse momento à crónica, não apenas por ser, sabe-se hoje, o momento fundacional que levou à presidência de Rui Rio no PSD, mas também porque esse momento marcará indubitavelmente essa presidência. Isto porque o governo Costa veio alterar as regras do jogo com que a democracia portuguesa jogava desde a estabilização dos partidos no pós-25 de Abril, regras essas que assentavam num bipartidarismo e numa alternância de poder entre PS e PSD (com ou sem CDS), mas que mudaram, não porque outras regras tenham sido escritas na nossa Constituição, mas precisamente por esta ter sido cumprida em toda a sua extensão. A grande questão para o que resta desta legislatura é se esta mudança nas regras passou a consagrar uma nova espécie de bipartidarismo, entre a aliança de direita e a frente de esquerda, ou se a maior dispersão parlamentar de votos levará, no futuro, pelo contrário, a soluções de bloco central como aquela a que assistimos repetir-se na Alemanha?

No equilíbrio destas duas posições e na margem de manobra que Rui Rio terá para ser ele a determinar o prato da balança onde se posiciona, estará, na minha opinião, a chave para perceber se estamos perante um líder a prazo, com validade apenas para 2019.

Refiro-me ao equilíbrio entre as duas posições, por um lado, porque elas são antagónicas. Rui Rio terá pouco tempo para escolher, com as suas prioridades programáticas, com a sua agenda mediática, com a sua equipa e com o estilo de liderança, se quer aparecer aos olhos dos portugueses como uma opção anti-PS/BE/PCP ou apenas anti-BE/PCP, sendo que a diferença é enorme e refletir-se-á, visivelmente, em cada uma dessas dimensões. Mas, por outro lado, refiro-me ao antagonismo dessas posições porque ele implica também com a relação direta de Rui Rio com o PS e, mais importante ainda, com o CDS e com a imagem do passismo. Não será fácil a Rui Rio manter uma postura de bloco central sem perder eleitorado mais ortodoxo à direita, nem manter uma postura anti-Geringonça sem alienar eleitorado de centro para o voto útil no PS. E eleitorado é coisa que Rui Rio não pode perder para ninguém.

Mas, como escrevi acima, não me parece que toda a estratégia esteja na mão de Rui Rio, que pode vir a ter de se sujeitar às circunstâncias e a reagir, ao invés de agir, àquilo que seja a estratégia do PS e de António Costa. Assim, a margem de manobra de Rui Rio será, em grande medida, condicionada pelo que as sondagens forem refletindo do xadrez político a cada momento, sendo que dificilmente a direita conseguirá aparecer em alguma delas à frente da esquerda.

A verdade é que, tendo o PSD esperado pelas autárquicas para mudar de líder, ao contrário do CDS, delapidou um recurso precioso que a política moderna tem tornado, cada vez mais, fundamental: o tempo. Rui Rio terá pouco mais de um ano para preparar eleições europeias, em maio de 2019, e legislativas, em setembro do mesmo ano. E convém lembrar que não começa o mandato em força, com umas eleições internas ganhas com menos vantagem do que o esperado quando se apresentou e com uma oposição interna velada, que entrou em modo de campanha ainda os votos não estavam todos contados na São Caetano à Lapa.

Entre comprar e arrendar casa em Lisboa, Rui Rio deve optar, até 2019, pela segunda opção…