Na crista da onda: Os pais do Bloco de Esquerda

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– António Maria, estás a abanar a cabeça. Hum!  Cheira-me a desconsolo. Posso saber qual?

– Desconsolo nenhum. Apenas uma discordância.

– E com quê?

– Ouviste, por acaso, as últimas notícias?

– As últimas não. Tenho estado na cozinha. E então  qual é o motivo do teu desagrado.

– Discordância, Leopoldina,  só discordância.

– Está bem. Desembucha.

– O cartaz

– Qual cartaz?

– Do BE.

-Que tem?

– É melhor veres.

Leopoldina aproximou-se e de imediato soltou um ah!, colocando a mão na boca. E logo disparou:

– Uma imbecilidade? Uma idiotice? Aquelas raparigas até são engraçadinhas, mas pensam que têm o mundo na barriga. De vez em quando embebedam-se com a miragem do poder, com aquilo que acham ser glória de uma iniciativa vitoriosa.  Ganham questões da moda e, não contentes com isso, sobem à torre da igreja e manejam o badalo, cantam, dançam, deitam os foguetes e correm atrás das canas…  Não sei que te diga homem. Mas até sei. Espera um instante. – Leopoldina  dirigiu-se à instante e tirou de lá um livro. Folheou-o rapidamente e, tendo encontrado o que procurava, voltou para junto do marido.  Tu  leste este livro? – perguntou .

–  Que tem? “

–  Chama-se “ O filho de mil homens”  e é de Valter Hugo Mãe.  E lembraste do que diz?  Vou lembrar-te. E só para nós, que aqui ninguém nos ouve,  escuta esta  passagem:  “ Os maricas, de tanto insistirem, ainda hão-de  ensinar a humanidade a nascer pelo cu (1).”

– Ó Leopoldina!… Não havia necessidade de agora trazeres à baila uma coisa dessas.

– Que foi?  Que necessidade tinha o BE de fazer um cartaz destes, não me dizes? E mais a mais,    não fui eu quem o disse. Está aqui  no livro. Ora se o BE  pode expor este cartaz, não posso eu citar uma frase de um livro que fala dos «coisos»  com que muita gente se baba, bate palmas e solta urros?  E não me recrimines. Liberdade de expressão é liberdade de expressão. Eles tiveram a sua e eu tenho a minha.

–  ‘Tá bem. Mas vê isto pelo lado positivo. Afinal, o BE até aceita que Cristo existiu. Até aceita que é filho de Deus. E isso não é mau.

– É péssimo.

– Péssimo?

–  Eu explico-te.  Mas tu pensas que foi por isso que publicitaram essa triste  ideia? O tanas. Este cartaz é de um  oportunismo parolo. Quiseram fazer uma graçola. Olha razão tinha o Jerónimo. São raparigas novas, com sangue na guelra. Precisam de crescer.  Queres saber uma coisa: “ O comportamento é um espelho em que cada um vê a sua própria imagem”, já  dizia Goethe.  Nós já conhecemos o espelho destas raparigas. Às vezes está baço… e desta vez até borrado.

– Já se arrependeram, coitadas. E isto é nuvem passageira.

–  Pois o mal é esse. Neste país é tudo nuvem passageira, um pequeno incidente, etc.etc.  Achas que se arrependeram?  Coisíssima nenhuma. Mas já agora explica-me, como se tivesse a idade da Catarina, pois há aqui uma aritmética que eu não percebo.   Jesus teve dois pais. O pai terreno e o «pai do céu», como nos diziam quando éramos crianças,  certo?

– Todos nós somos filhos de Deus. Todos temos dois pais.

– Sim.  Mas não há algo de errado nessas contas nessa maridagem? Nessa teoria da adoção por homens, só por homens, quantos pais passam a ser?

-Como assim?

–  Faz aí a soma.  “Deus» o pai para todos os crentes e agora no cartaz do BE,  + pai biológico + pai-pai +pai-mãe, quantos pais são?  Ouve-me:  só são dois se os complementos forem mãe-esposa e  mãe-marido. Se ter dois pais é uma aberração porque só um espermatozoide… entendes, aberração continua a ser porque não  há duas mães. Só um útero gera uma criança.  Ó António Maria, tu já viste em que se está a transformar este mundo? Num pesadelo. Mas que pesadelo! E para que estas aberrações não nos perturbem a mente, sabes o que é melhor para  nos acalmar esta azia  ?

– Jantar.

–  Ora, pois, vamos a isso.

 

(1)Valter Hugo Mãe, O filho de mil homens, Editora Objetiva, 4ª ed., 2011, pag. 132

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