O meu S. Pedro de 1969

979

Ainda havia no ar perfume a Santo António, que S. João com o seu cordeirinho não entrava nesta reinação, e já o S. Pedro se anunciava na rua Central, onde a festa se havia de fazer com milhares de “pucarinhos de barro/ barro moreno e grosseiro,/ mas tão lindos, tão bem feitos,/ e por pouco dinheiro! (Mons. A. Minhava).
O dia era de sol, escaldante, como se queria que fosse em finais de junho, inícios de Verão no calendário. Assim, o Santo connosco, adivinhava-se uma noite plena de folia. Vila Real continuava a viver um dos seus dias mais encantatórios, naquele ano de 1969.
Nesta noite, tinha autorização para sair de casa, da casa que me acolhia e que me impunha regras nas saídas fosse de dia fosse à noite, sobretudo quando esta era rainha. Nem tudo era liberdade e a libertinagem não se associava a quem me dava guarida. Disciplina era disciplina e era ela que nos indicava o caminho correcto rumo ao amanhã. Era eu estudante, do 7º ano dessa era, termo do ensino secundário, e já com exames feitos, à espera de ver as «notas», a preto, nas linhas das pautas do liceu, de que não fora aluno, já que, vindo de outra instituição, a melhor da cidade, o Seminário, não me pude matricular, porque ultrapassara os 18 anos, era maior, só com direito a fazer exame como aluno externo. Coisas que o destino tece, melhor, regras incompreensíveis de um tempo de … Estado Novo já velho, como o «velho» que um ano antes caíra da cadeira…
Naquele dia 28, vestira uma camisa branca, quando saí casa, na rua Alves Torgo, última habitação, então. Namorava já. Nada de especial, eu sei. Ela, Nair, morava na rua Direita, nº 25, 2º andar. De plantão na varanda, desceu , quando me descobriu no meio da gente que se dirigia para o Largo da Capela Nova, coração da festa, onde tocava já a banda de música.
Sem mão dada, que na rua andavam olhos vesgos e a língua de algumas pessoas era viperina, juntámo-nos às gentes, deambulando aos encontrões pelos corredores estreitinhos dos milhares de púcaros negros, guardados com pares de olhos bem abertos dos oleiros, das mulheres e filhos, não fosse estudante malandro, e muitos havia por ali, até em rancho divertido, aproveitar pequena distração para sorrateiramente rapinar um panelo que serviria para o divertimento da moçada, na Avenida.
E foi para aqui que fomos, com alguma dificuldade, ultrapassando a Serpa Pinto, a cheirar a pipocas e algodão doce, entrando no aperto da António de Azevedo, para depois do Largo do Pelourinho, abraçarmos a Carvalho Araújo, onde a animação, mais liberta, dava azo ao jogo do panelo. No momento, apercebemo-nos que eramos seguidos por duas figuras femininas, não desconhecidas.
À frente do escadario da Câmara Municipal, o chão já mostrava que a alegria tinha largos minutos de vida tal era a morte dos púcaros, expressa nos mil bocados que manchavam o chão. Quisemos entrar na roda. Mas não houve tempo. Uma das perseguidoras trazia um púcaro escondido. E, por razões por nós adivinháveis, jogou-o de bojo na minha cabeça, escaqueirando-se ao mesmo tempo que libertava o pó negro que num ai destruiu o branco imaculado da minha camisa.
Elas viraram costas e se foram, nós, nada havendo a fazer, jogámos depois.
“Pucarinho de S. Pedro,
barro preto que dá sorte,
leva dentro as minhas mágoas;
se quebrar, ninguém se importe.”

Deixe o seu Comentário

Comentário