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Artigos de Opinião | 28-07-2010
A ALEGRIA DE SER FELIZ por José Dias da Silva
O episódio de Sodoma, recordado no domingo passado e fixado na literatura e na expressão comum, desafiou-me a imaginar o diálogo de Deus com Abraão nos tempos actuais. Talvez Deus perguntasse não pelo número de justos mas antes pelo número de felizes. Não é que não haja justos hoje. Que os há! Mas hoje a preocupação das pessoas...

...parece muito menos centrada na justiça do que na felicidade. Não estou a julgar nada nem ninguém. Estou apenas a referir uma impressão que tenho: hoje, a maior parte de nós regula-se pela lógica do bem-estar, pela lógica da felicidade. Não investiguei estudos sociológicos. Apenas me baseei num olhar empírico, mais ou menos atento, de quem olha à sua volta. Haverá cinquenta felizes para salvar a cidade? Mas o que têm o número de felizes com a salvação da cidade? Tem muito, porque uma cidade de infelizes é necessariamente infeliz e acaba por definhar. Precisamos de serviços onde as chefias transmitam alegria aos seus funcionários e tornem o ambiente de trabalho alegre e feliz. Precisamos de pessoas que não ponham a felicidade nos seus interesses imediatos ou na sua inércia mas na atenção dedicada aos outros.

De que vale a uma equipa de futebol ter onze “galácticos” se não jogar com alegria? E bastam cinquenta felizes? Não sei, mas quantos mais forem mais se “pega” e em vez de cinquenta passarão a ser cem, depois duzentos, até que se chega um momento em que ser infeliz é tão anormal que ninguém quererá ser infeliz. Bonitas palavras, mas a felicidade não se compra ao virar da esquina. Pois não, mas constrói-se no dia a dia, com esforço, dedicação, persistência. A nossa felicidade, a felicidade de cada um, depende muito das decisões que tomamos, do modo como gerimos as diversas situações, dos sacrifícios e renúncias que aceitamos fazer e das “coisas boas” imediatistas e egoístas a que somos capazes de dizer não.

Olhemos à nossa volta. Muitos confundem felicidade com consumismo, consumismo desenfreado, que chega ao ponto de ser mais importante o acto de comprar do que aquilo que se compra. Já ouvi mais que uma vez um miúdo dizer ao pai ou à mãe “compra-me uma coisinha”. Mas o quê? Qualquer coisinha. “Coisinha” que mal, chegados a casa, é atirada para o baú dos esquecidos. Conheço vários adultos que quando se “sentem em baixo” vão “fazer compras”. Necessárias? Fisicamente, não; psicologicamente, sim. “Todos nós experimentamos, quase palpavelmente, os tristes efeitos desta sujeição cega ao mero «consumo»: antes de tudo, uma forma de materialismo crasso; e, ao mesmo tempo, uma insatisfação radical, porque se compreende imediatamente que quanto mais se tem mais se deseja, enquanto as aspirações mais profundas restam insatisfeitas e talvez fiquem mesmo sufocadas.” (SRS 28).

Para outros, a felicidades está no álcool ou noutras drogas. Quem não ouviu já alguém dizer: “Não estava bêbado; estava apenas alegre com uns copos!” Alegria associada a copos! Há sempre alguma desculpa: uns, porque precisam de combustível para perder a timidez; outros, porque se trata de um ritual de convívio social. Poucos pensam que também estão perante uma “indústria de entertenimento” bem montada não para beber uns copos e conviver, mas para derreter dinheiro que vai enchendo a caixa até o pagador (o “feliz”) “cair para o lado”. Ainda não entendi bem como pode alguém ser feliz porque deixou de ser capaz de se controlar e de saber o que faz e se sujeita a ser manipulado por negociateiros sem escrúpulos!

Há os que confundem felicidade com poder: a orgia do poder é uma imagem clássica. Ter poder, controlar os outros, manipular os factos. E esta observação aplica-se a todos os poderes mas especialmente ao da comunicação social. Há muito jornalista honesto e sério, mas quantos não caem na tentação de “ganhar fama” (outra forma de felicidade) com meias verdades, insinuações, escolha adequada no modo e no tempo para divulgar insignificâncias significantes!
Também para muitos crentes, há a “felicidade do Tabor”: “É tão bom (“feliz”) estarmos aqui”, no quentinho e afastados daquele mundo lá em baixo, cheio de tentações, de maldade e corrupção; não ter de “sujar as mãos” na construção de um mundo melhor. É tão bom estar aqui em paz interior, em comunhão íntima com Jesus. Pois é.

Realmente nada podemos sem esta comunhão íntima, sem esse encontro transformador com a Pessoa de Jesus, mas não é para ficarmos no sossego do Tabor: é para levar a mensagem aos coxos, cegos, presos, doentes, pobres. Seguir Jesus Cristo é ir ao Tabor carregar as pilhas, mas não é ficar lá por muito feliz que isso nos deixe. Essa felicidade é fundamental, mas torna-se egoísta e alienante se não se converte no serviço aos outros. “Senhor, o que é preciso para ganhar a vida eterna? Cumprir os mandamentos… Mas se queres ser perfeito (feliz) vai vende tudo o que tens e dá-o aos pobres”.

E o doutor da lei retirou-se cabisbaixo, porque esperava uma resposta intelectual e não vivencial! Queria uma reflexão teórica e não uma exigência prática! Mas Jesus não nos poupa: com a corrosiva parábola do Samaritano veio mostrar o primado da ortopraxis sobre a ortodoxia, do fazer o bem sobre o saber a doutrina. Mas nós preferimos o saber ao fazer! E passe a heresia: o que seria de Maria, que “escolheu a melhor parte”, se Marta não fizesse o almoço? É que a felicidade só existe no serviço ao outro, mesmo que isso implique, e implica quase sempre, sofrimento físico ou cansaço moral. Como disseram os nossos Bispos: “Criado por Deus para a felicidade, o ser humano encontra na sua dedicação ao bem da comunidade em que se insere os meios para realizar essa felicidade pessoal e social” (15.Set.2003). Boas férias e sejam muito felizes sem abusar dos supermercados nem dos copos!

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