| Passos Coelho pode nunca chegar a Primeiro-Ministro, mas só pela discussão que está a provocar por causa das propostas de alterações à Constituição da República já está a marcar pontos para o futuro. Toda a gente sabe qual foi a minha posição aquando da campanha interna para a eleição do líder do PSD. Nesta mesma página teci as considerações que achei tecer sobre Passos Coelho. Não retiro nem uma palavra. Até porque ainda a procissão vai no adro e algumas fragilidades que eu pessoalmente antevi já estão a manifestar-se. Mas honra seja feita a quem tem a coragem de dizer alto e bom som, na cara, que a Constituição não é intocável, não é imutável e que não está tão bem que não possa nem deva ser mudada.
Se fossemos a pensar dessa forma, só com um golpe de Estado se poderia mudar esta ou qualquer constituição. E não é isso o que se pretende. E são as forças mais conservadoras de esquerda que afirmam ser um golpe de Estado aquilo que a actual liderança do PSD pretende fazer. Passos Coelho até pode estar a meter-se numa embrulhada. Até pode estar a perder o pé e a ver irem-se embora as possibilidades fortes que tinha de se vir um dia a tornar Primeiro-Ministro de Portugal, por falar demasiado claro, por pôr os nomes nos bois, tocar nas feridas, onde mais dói.
Mas, neste momento, é disto que o país precisa. Não necessita de mais paninhos quentes. Não pode continua a fingir que tudo esta bem e que esta crise há-de passar, sem que a maioria dos portugueses se aperceba. Não pode continuar a aceitar-se uma política mentirosa, que nos quer fazer acreditar que o Estado tem capacidade para se aguentar sem fazer reformas muito profundas. Não. A grande maioria dos portugueses que trabalham já está a sentir na pele as consequências desastrosas de políticas que já provaram não serem as correctas.
E nem se venha dizer que havia coisas mais importantes do que estar, agora, a discutir a Constituição. Se mais não resultar, o que não acredito, da liderança de Passos Coelho, se ele se mantiver firme, isto já é muito importante. E poderá vir a ficar na história por ter obrigado a mudar o tal paradigma de que todos enchem a boca, mas ninguém diz o que é. Vir dizer que se trata de políticas liberais é vir dizer, porventura, que aquilo que o PSD actualmente pretende é deixar os pobres e desempregados ao abandono?
Dizer que as alterações propostas são em si mesmas atentatórias dos direitos constitucionais das pessoas, tais como as respeitantes à saúde e à educação. Como se estes sectores estivessem bem! Querer dizer que não se pode mexer na estrutura do poder e nos poderes dos diferentes órgãos do Estado, como nos poderes do Presidente da República. Repito, posso não estar de acordo com algumas dessas alterações – e não estou, de facto de acordo com muitas e faria outras propostas – mas ninguém lhe pode retirar o mérito de ter lançado a discussão sobre um tema que até parece tabu para certa gente.
Esta crise deve ser aproveitada exactamente para questionar tudo, a começar na forma como temos sido governados, o funcionamento das instituições, reflectindo sobre a falta de projecto evidente para Portugal e a ausência de estratégia. Enquanto não fizermos isso, definirmos um rumo, não sairemos desta situação calamitosa em que nos encontramos.
2 – Mas há uma coisa que me preocupa neste PSD. É o unanimismo. Ouviram-se umas vozes estranhas, de fora do órgão partidário. Mas como é possível que num Conselho Nacional, onde existem tantas sensibilidades, não se tenham levantado vozes contra esta ou aquela proposta? Isso só tem uma explicação. A maioria dos conselheiros presentes ou estão em cargos de poder ou esperam vir a estar. A maioria deles espera vir a ser deputado, ministro ou a ocupar cargos em qualquer empresa ou Instituto Público. E isso é que me deixa muito preocupado.
É que a grande maioria desta gente só pensa no seu tacho, na sua barriga, só olha para o seu umbigo. E ainda que não estejam de acordo com o Chefe, preferem dizer amén, do que estar a enfrentá-lo, sujeitando-se a ficar de fora quando o PSD for poder. É por esta e por outras que esta espécie de democracia está com o está. E assim não iremos a lado algum. Com gente desta, que anda há anos e anos nisto, a fazer pouco mais que nada, apenas a pensar como se há-de governar, onde há-de ir pousar o pote de cada vez que o seu partido entra ou sai do poder, não iremos a lado nenhum.
Não há espírito crítico. Falta discussão. Isto precisa urgentemente de uma varridela à moda antiga, com vassoura de gesta ou até mesmo de tojo bem bravo, escorraçando-os para bem longe e dizendo-lhes cara a cara, que se governem, que vão trabalhar na sua profissão, se a tiverem, e, caso contrário, que a arranjem.
3- O director do jornal SOL ao dizer que lhe parece que a corrupção será a outra face do poder, dando como exemplo o grande autarca Isaltino, mas certamente a pensar em Angola, onde o jornal se instalou em grande e de onde recebe os dólares para se aguentar, contradiz muita coisa e retira credibilidade a muita coisa que o mesmo jornal tem noticiado ao longo dos últimos anos. Não sabia que havia uma corrupção boa e uma corrupção má…
Perdoo-lhe, esta ideia, pelo belíssimo artigo que publicou na revisa TABU, sobre a importância da família, onde diz que quando chegam os 40, 50 ou mais é que se dá valor a uma relação estável e duradoura. Um grande artigo cuja leitura aconselho, pois tenho defendido isso mesmo ao longo da minha vida e não me canso de o reafirmar perante toda a gente sempre que me é possível. Estás perdoado, José António. |