| “Salvo Melhor Opinião” é um espaço de opinião a cargo de Vasco Amorim e Rodrigo Sá que, em cada edição do NVR, nos trazem duas perspectivas diferentes e duas formas distintas de encarar o mesmo assunto. É uma rubrica sobre temas da actualidade que merecem a nossa atenção. Este mês de Julho teve uma estranha dinâmica política. Depois de eleito Presidente do PSD, uma sucessão de decisões políticas fizeram ironicamente Passos Coelho um aliado de José Sócrates, dando a mão a um conjunto de medidas que até provocaram o pedido de desculpas aos Portugueses. Os partidos da esquerda logo começaram a colocar o PS e o PSD no mesmo saco, alegando que nada os diferenciava… No entanto, rapidamente tiveram de se calar, pois com as acções douradas utilizadas pelo Estado na negação do negócio da compra da Vivo à Portugal Telecom pela telefónica, Passos Coelho voltava a valorizar as regras de mercado contrariando assim o Governo.
A interferência do PSD na política do Governo da introdução de portagens nas SCUTs concretizou mais um passo na separação das ideias e a discussão política polarizou fortemente entre os dois partidos, ofuscando os restantes. E continuou a marcar a agenda com nova surpresa, deixando uns com dúvidas, outros criticando construtivamente, outros ainda, rejeitando liminarmente. Afinal não é todos os dias que despertamos para a lei fundamental da República – a Constituição Portuguesa. Como nota prévia, importa avisar o leitor que não irei tecer comentários à letra da proposta/ante-projecto, porque não a consegui obter. Acresce ainda que não é a versão final!
A estratégia política do PSD continuou assim fortemente rumo à direita, provocando incompreensões dentro do PSD e entre vários autarcas e ex-dirigentes. A manobra resultou foi controlada pela discussão animada num Conselho Nacional. Moderadas algumas propostas provocatórias a discussão vai continuar, pois sendo matérias pouco revistas e moldadas continuamente pelo tempo e pela vida, prometem calor num futuro próximo. Sendo Pedro Passos Coelho capaz de MUDAR, a principal questão que fica é se o tempo do anúncio (vulgarmente designado como “timing político”) foi o mais adequado. Mudar vai ser uma certeza com Passos Coelho. Quem tiver dúvidas basta recordar o ciclo dos anúncios já apresentados e permaneça atento aos que virão no futuro…
Até a campanha presidencial vai acabar por ser mais ideológica do que habitual, podendo prejudicar o actual presidente Cavaco Silva, caso este, se queira recandidatar e tiver de ir a uma segunda volta (improvável). O balanço político deste mês só o futuro o dirá, mas se alguns eleitores ficaram surpreendidos, outros ficaram desconfiados. A clarificação das diferenças entre os dois maiores partidos mata o famoso ‘centrão’, mas a união da esquerda em matérias ideológicas poderão dar mais vida a um governo que se pensava nos seus últimos dias. As ideias fortes lançadas pelo PSD permitiram ainda ao Governo encobrir as asneiras e a falta de preparação de vários Ministros e Secretários de Estado.
O Primeiro-ministro José Sócrates agradece aos estrategas do PSD e retribuí com um forte contra-ataque e a formação de uma equipa que se vai preparar para a batalha constitucional. Não desiste. Todos nós em geral queremos mudar, mas para melhor. O Partido Socialista vai concentrar-se em assustar os Portugueses com o ‘bicho papão’ do PSD de Passos Coelho, com a ajuda de toda a esquerda. Passos Coelho, porém, terá a responsabilidade de explicar bem o que pretende aos eleitores, pois se estes se assustarem poderão rejeitá-lo, apesar de estar em confronto com um Governo desgastado. Se os eleitores compreenderem e aceitarem as propostas do programa do PSD, o País assistirá a uma revolução social e económica, a começar precisamente pelo início - a Constituição.
Rodrigo Sá
O PSD de Pedro Passos Coelho entrou na vida política portuguesa como uma lufada de ar fresco. De repente tudo parecia diferente, depois de vários anos de líderes a prazo, seguidos do cinzentismo amorfo de Manuela Ferreira Leite. De repente surgia aquele jovem bem-falante, com voz de artista e figura cuidada. Ninguém ouvia o que ele dizia, mas o ar grave dava a sensação de que devia ter dito qualquer coisa importante. As televisões adoraram-no e povo, cansado de uma crise sem fim, imaginou que poderia estar ali a solução.
Não todo o povo, claro, mas aquele povo mais desatento ao fenómeno político, que necessita de seguir alguém, cujo sebastianismo genético o mantém à procura de um líder em dias de nevoeiro. E então Pedro Passos Coelho falou para o povo. E de repente toda a gente percebeu que há uma enorme diferença entre Bife à Milanesa e Bife ali na mesa. Tal como PPC fez questão de afirmar recentemente, ficou claro que há uma enorme diferença entre o Partido Socialista e o Partido Social Democrata de Pedro Passos Coelho. E falo deste, especificamente, pois há outro. Há aquele dos… sociais-democratas. Nada de confusões.
Há aquele PSD que Francisco Sá Carneiro quis inscrever na Internacional Socialista. Deve ser um Sá Carneiro diferente daquele que insistem em comparar com Pedro Passos Coelho. Familiar, talvez, mas distante. Porque esse, o que foi assassinado com uma bomba num avião, não admitiria o fim do serviço nacional de saúde. Não imaginaria o fim da escola pública. Não compreenderia os subterfúgios linguísticos com que se pretende liberalizar o despedimento de Mães e Pais de família, com compromissos a cumprir. Sim, é de si que estou a falar, cara leitora, caro leitor. De si e dos seus filhos.
Sem clubites partidárias, sem dicotomias estéreis. Cada vez que lhe dizem “o sistema nacional de saúde deverá deixar de ser tendencialmente gratuito”, estão na realidade a dizer-lhe “quando tiver um filho, cujo parto custa entre 5000 e 6000 euros, vai pagar tudo do seu bolso”. Ou 1.500 euros por uma ressonância magnética. Ou qualquer outra intervenção médica cujo preço nem sequer imagina. Isso é que é o fim do serviço de saúde tendencialmente gratuito. Recordo-me bem do barulho que se criou pela introdução de uma taxa moderadora que não chega a 10 euros…
Nesta altura, em que o mundo vive em sobressalto financeiro, em que os estados tiveram que intervir, salvando a economia, agravando défices e outros indicadores, em que o desemprego é alto e o número de pessoas que necessitam de apoio social é crescente, nesta altura, precisamente nesta altura, Pedro Passos Coelho decide que o que interessa ao País, o que é realmente importante, é rever a Constituição. É diminuir a segurança no emprego. É atentar contra o Estado Social. É destruir o legado que tantos, alguns do PSD, construíram para Portugal depois de 50 anos de ditadura.
Eu concordo com Pedro Passos Coelho: há uma ENORME diferença entre o PS e o PSD. Felizmente! E ai de quem ouse afirmar o contrário! Sá Carneiro era respeitado dentro e fora do seu partido, deixou saudades. Pedro Passos Coelho, o que nos andam a tentar convencer que é o delfim de Sá Carneiro, deixa vontade de sentir saudades. |